terça-feira, 22 de maio de 2018

Videodrome: A Síndrome do Vídeo (1983) de David Cronenberg

DESLIGUE A TV!

Diretor de uma pequena emissora de TV a cabo adquire um tipo diferente de programa; o "Videodrome", mas começa a ver sua vida e o futuro da mídia saindo de controle com esta nova realidade aterradora. 


Abra a sua mente. Exploda a sua cabeça. Fazia tempo que não postava no blogue, sobretudo, não escrevia algo há muito tempo sobre  DAVID CRONENBERG, o cineasta mais cult de sua geração e de gerações vindouras que apreciam um pouco do exploitation e sanguinolência. Cronenberg nunca teve medo de ser ao pé da letra apelativo e sensacionalista, indo a fundo com temas mórbidos no melhor estilo desse cinema apelativo, mas, uso tais palavras no bom sentido. Certamente, o canadense sempre teve uma visão artística muito específica e não há a menor dúvida que Cronenberg, assim como Romero, Fulci, Argento, é um dos grandes mestres do terror no final do século XX. Hoje em dia faz filmes diferentes, tanto que essa fase na qual VIDEODROME faz parte, ficou no passado. Mas é bom frisar que Cronenberg fora um dos poucos que soube, lindamente, passar da fase das pequenas produções, que formaram uma horda de fãs, para grandes produções sem perder seu estilo bizarro e de violência explícita. Aliás, quem não gosta já fique sabendo que não é recomendável, principalmente aos que tem estômago mais fraco. 

Sim. Cronenberg é o mais original e respeitado (entre os demais diretores do gênero), pela crítica especializada e creio que tudo isso se confirmou com a aclamada refilmagem do clássico A MOSCA DA CABEÇA BRANCA (de Kurt Newman, 1958) em 1986. Leia o meu texto sobre o filme clicando AQUI

Em 1966 dirigiu seu primeiro curta, TRANFER. A seguir, dois média-metragens, STEREO (1969) e CRIMES OF THE FUTURE (1970). Fez um estágio de um ano na TV francesa. De volta a sua terra natal, Canadá, trabalhou para a TV local, estreando no cinema lá por volta de 1975. Dirigiu JEREMY IRONS num papel seminal, aliás, duplo-papel, diga-se. O filme? GÊMEOS, MÓRBIDA SEMELHANÇA (1988) - um dos meus prediletos, também, pelo qual foi premiado no Festival do Cinema Fantástico (o extinto Avoriaz) e, em seguida, adaptou o clássico romance beat ALMOÇO NU, de William Burroughs, em MISTÉRIOS E PAIXÕES (1991). Voltou a trabalhar com Irons em seu filme seguinte M. BUTTERFLY, adaptação de uma peça da Broadway escrita por David Henry Hwang. CRASH - ESTRANHOS PRAZERES, sua polêmica adaptação da obra de J. G. Ballard, com James Spader e Holly Hunter, obteve grande prêmio do Júri no Festival de Cannes

Cronenberg tem aparecido com frequência como ator em fitas suas ou alheias, seja em pontinhas ou em aparições em destaque. Ele é uma figura interessante e um cara de múltiplas facetas. Mudou um pouco o gênero na recente fase que passa por fitas como:  MARCAS DA VIOLÊNCIA (2005) e SENHORES DO CRIME (2007 - leia AQUI), ambos com VIGGO MORTENSEN; UM MÉTODO PERIGOSO (2011) e MAPA PARA AS ESTRELAS (2014) seu último filme até agora lançado. Todos de grande ressonância. Perdeu um pouco a mão no estranho (no péssimo sentido) COSMOPOLIS (2012), com ROBERT PATTINSON, BINOCHE e grande elenco. Ainda era o mesmo cara quando dirigiu eXistenZ (1999), com JUDE LAW e JENNIFER JASON LEIGH - uma premissa nova e original. Mas, confesso, é a sua fase inicial que me fascina. Filmes antes de "Videodrome"  e completamente insanos e de exploração: ENRAIVECIDA NA FÚRIA DO SEXO (1977 - "Rabit", estrelado por MARILYN CHAMBERS); OS FILHOS DO MEDO (1979 - "The Brood", com OLIVER REED); no mesmo ano, ESCUDEIRA DO PODER ("Fast Company", com JOHN SAXON) e, certamente o mais conhecido, SCANNERS, SUA MENTE PODE DESTRUIR/ TE MATAR  e ou/ EXPLODIR! (1981. Estrelado por JENNIFER O´NEILL e PATRICK McGOOBAN). Também foi feliz com uma adaptação literária baseado na obra de STEPHEN KING: A HORA DA ZONA MORTA (1983 - "The Dead Zone", com roteiro de JEFFREY BOAM e atuação de CHRISTOPHER WALKEN. 

Em VIDEODROME (1983), Cronenberg soltou alguns demônios alucinógenos. Tem a sábia escolha de escalar JAMES WOODS um dos grandes atores que aprendemos a admirar por papéis cínicos. Indicado ao Oscar por SALVADOR, de Oliver Stone e FANTASMAS DO PASSADO (aliás, nunca entendi essa indicação - apesar de gostar do filme do Rob Reiner). Um cara que já trabalhou com grandes mestres em obras-primas (LEONE E "ERA UMA VEZ NA AMÉRICA"), enfim, inúmeros filmes, séries de TV (muitas vezes parodiando a si mesmo), participações relevantes como a de CASSINO (1995 - de SCORSESE) e o ótimo VAMPIROS DE JOHN CARPENTER (1998) trash e divertido. Woods sempre teve ótima liderança para protagonismo. Videodrome acabou por torná-lo imortal no papel de MAX RENN, um diretor desprezível de uma rede de televisão a cabo - CIVIC-TV  - que utiliza satélite pirata, operado por seu melhor amigo, Harlan, interpretado por PETER DVORSKY, afim de transmitir programas televisivos de pequenos canais estrangeiros e, com isso, permitindo que Renn evite pagar os direitos de exibição. Assim sendo, sua rede tem uma grade especial que consiste passar filmes ultra violentos e grotescos, todos de baixo orçamento além de pornografia barata. Mas, a ambição de Max Renn o faz querer obter uma programação mais relevante e que se torne grande, popular, saindo no nicho cult. Eis que ele encontra o sinistro Videodrome do título. Uma programação aparentemente interessante e que era exibido na Malásia, onde pessoas são torturadas e mortas em frente às câmeras, parecendo o Big Brother. 
Ambicioso, ele acredita que o futuro da TV está nessas produções "Snuff", basicamente são filmes que mostram mortes ou assassinatos reais de uma ou mais pessoas, sem a ajuda de trucagens (efeitos especiais), para o propósito de distribuição e entretenimento ou exploração financeira. 

Por essa razão, Videodrome se consagra. É meio que Cronenberg criando uma reflexão do que o próprio fizera nos filmes anteriores (não que fossem Snuff, evidente que não!), mas me refiro a um sentido revolucionário que se originou do movimento comercial dentro do tipo de produção indie da década de 1970/1980 em Hollywood, e muito pelo qual Cronenberg surgiu. Sua premissa é sobre as chocantes transformações criadas pela exposição à violência, sobretudo a televisionada e habilmente, o filme não deixa de lado os problemas que o cineasta havia tido com a censura, distribuidoras e grupos feministas, justamente por conta da demanda de exploração e de imagens de violência gráfica e sexual contidas em suas produções. O mais interessante é que Videodrome é um filme onde o feitiço se volta contra o feiticeiro. Não que Cronenberg seja um cínico como o personagem de James Woods no filme. Não creio que o protagonista seja Cronenberg, mas é sobre uma marcação serrada que filmes do gênero sofrem pelos algozes censores que muitas vezes nem se dispõe de certo discernimento quando decidem barrar aquele filme exploitation feito unicamente para um determinado público.

Na trama, literalmente, afinal, Cronenberg não poupa vísceras e sangue, Renn tem seu abdome transformado numa "vagina", uma abertura na qual, entre outros objetos, como videocassetes, podem ser inseridos. É bastante sadomasoquista e chocante. Simbólico e ao mesmo tempo, literal toda aquela  troca de gênero que desempenham papéis centrais e que, no final, acaba por ser trágico. Uma das marcas registradas do diretor é a autodestruição de seus protagonistas masculinos, por exemplo, vide "A Mosca". 

Fica a impressão que Cronenberg realmente almejou fazer um filme fantástico subjetivo emulando também a convenção do Thriller comercial. E o resultado, como de costume aos temas característicos de Cronenberg, escandaliza com todas as honras. Perturbador. Gritante. Revoltante. Inusitado, mas emocionante para os adoradores do gênero. Seu domínio visual continua extraordinariamente bem elaborado e perturba toda a questão polimorfa trabalhada na história. Revendo, fiquei um pouco desconfortável com tudo isso, no mau sentido, quando não é para ser em um filme do Cronenberg. Nada que tire minha experiência e satisfação geral da fita, mas a perversidade do sexo é algo um pouco além aqui. Estranha sensação devo admitir. Quando garoto, achava o máximo tal perversidade. Creio que a gente amadurece em várias situações, de fato.  E, para não dizer que estou exagerando, soube anos depois que uma sequência final foi cortada da edição, que mostrava dois personagens femininos desenvolvendo pênis em uma espécie de contraponto à "vagina" de Max. Curioso como até mesmo para Cronenberg seria algo fora do tom. E reza a lenda: a cena era realmente perturbadora! 

Diante de tudo isso, VIDEODROME é uma experiência gratificante. James Woods e David Cronenberg em plena forma. Um filme idiossincrático para qualquer padrão de Hollywood e ainda por cima, um cult por excelência. 

CANADÁ
TERROR- FICÇÃO-CIENTÍFICA - SUSPENSE
1h 27 min.
🎥 DAVID CRONENBERG 
★★★★☆







Um Filme de David Cronenberg
VIDEODROME

Estrelando:
James Woods    Sonja Smits
Deborah “Debbie” Harry     Peter Dvorsky

Música Howard Shore    Fotografia de Mark Irwin

Montagem Ronald Sanders    

Direção de Arte Carol Spier 

Figurinos Delphine White

Produzido por Claude Héroux

Escrito e Dirigido por 
David Cronenberg

© 1983 FAMOUS PLAYERS/ FILMPLAN/ GUARDIAN/ CFDC/ UNIVERSAL

Um comentário:

Hugo disse...

Um dos grandes cults dos anos oitenta.

Preciso rever.

Abraço

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