quarta-feira, 30 de maio de 2018

O Segredo da Porta Fechada (1947) de Fritz Lang

O NOIR ONÍRICO DE LANG 

Quando uma linda esposa e seu novo marido se instalam em uma antiga mansão na costa leste, ela descobre que ele pode querer matá-la. 


Pela sinopse logo associei a outro clássico do cinema da mesma época. Embora não seja um Film-Noir propriamente, mas, SUSPEITA, um filme não muito favoritado do mestre do suspense Alfred Hitchcock (leia aqui), certamente fora emulado nessa fita também menos ressonante de outro mestre, FRITZ LANG (1890-1976)

Já postei duas obras fundamentais de Lang aqui no blogue: M, O Vampiro de Dusseldorf (M - Eine Stadt sucht einen Mörder ,1931)Metrópolis (1927), ambos meus filmes de cabeceira. No entanto, é verdade que o cineasta tem uma vasta lista de películas importantes como os filmes do DR. MABUSE com Rudolf Klein-Rogge , por exemplo. Alguns acreditam numa mudança de personalidade quando o cineasta mudou-se para Hollywood.  A bem da verdade é que quando fala-se sobre Fritz Lang começam a surgir opiniões das mais mistas. Normalmente há cinéfilos que preferem os filmes mais megalomaníacos do cara, vide "M" e até mesmo "Metrópolis" (esse já considero justificável, até mesmo porque acabou influenciando pessoas como George Lucas e muitos outros artistas que escrevem ficção-científica ou filmes futuristas). Tem a parcela de espectadores que consideram filmes como OS CORRUPTOS (1953) um exemplo de pretensão. E ainda, os que tem predileção pelos filmes mais estranhos dele, seja pela sua visão perversa e um tanto críptico com relação a vida e a morte. Exemplo disso provavelmente se debruça a obras como O DIABO FEITO MULHER (1952) e aquela fita que, para mim, é realmente a mais estranha e menos ressonante; O TESOURO DO BARBA RUBRA (1955), basicamente, a priori, uma aventura simplória. 

Ao mesmo tempo em que Lang fazia um cinema mais de autor, de vez em quando atendia aos estúdios e cometia filmes que acabavam por serem remontados a gosto do patrocinador. Aliás, é o caso desse O Segredo da Porta Fechada (1947), estrelado por JOAN BENNETT (1910-1990) que até esse ponto já tinha uma carreira estabelecida e, com Lang, havia feito Um Retrato de Mulher (The Woman in the Window, 1944), co-estrelado por Edward G. Robinson e novamente com a mesma dupla no filme seguinte: Almas Perversas (Scarlet Street, 1945) seguindo a fórmula padrão dos Film-Noir com chantagem, assassinato, personagens canastras e fêmeas fatais. Também estrelado por MICHAEL REDGRAVE (1908-1985), o filme é um exemplo do que Hollywood produzia à época. Aquele período mais sombrio do cinema americano, o noir e as mulheres góticas, diga-se. E relacionamentos fecundos. Eu sou mais fã de "Um retrato de Mulher", mas "O Segredo da Porta Fechada" tem seus méritos. Lang bebe na fonte de Hitchcock sem medo. Apesar de parecer com "Suspeita", um dos filmes mais problemáticos de Hitch (que não tinha certeza de seu final e o mesmo dizia que a escalação de Cary Grant estava errada) é no sensacional REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL de 1940 a maior fonte de inspiração de Lang. Veja bem, a trama é similar. Na premissa assistimos esse relacionamento profícuo entre uma mulher (Bennett) e um homem (Redgrave) que tem o seu lado misterioso (como a maioria dos personagens masculinos de Hitch, Cary Grant em Suspeita e Laurence Olivier em Rebecca), ou seja, traz consigo o perfil  galanteador irresistível e totalmente sedutor e, ao passar da trama, vamos sentindo aquele suspense com o seu desenrolar. Nem tudo são rosas. Nem tudo é perfeito demais. Começam as suspeitas. Começa o perigo. Aqui, Bennett, assim como Joan Fontaine em Rebecca, faz a heroína, Celia Lamphere, que adentra o lar de estranhos. A forasteira que "incomoda" os já presentes residentes e, como é típico nesses filmes, um conflito do passado tornou-se trauma. Tudo é oculto demais, doentio e secreto. 

Algumas coisas não ficam muito claras, talvez por tomar uma direção onírica e ambígua. Mas, o que Lang deixa bem explícito é o sadomasoquismo da premissa. Nesse ponto, Lang se difere de Rebecca. Vai para uma direção oposta a Hitchcock dentro de um contexto surpreendente e até original. O personagem de Redgrave, por exemplo, Mark Lamphere, é um homem atormentado. Fora reconhecido como um gênio da arquitetura que construiu uma casa milimetricamente perfeita, isto é, de "cômodos precisos" (até emula o expressionismo alemão que Lang faz lindamente), um cenário importante para a narrativa, cada qual a reconstrução da cena de um assassinato psicossexual. 

O filme é noir dos mais respeitáveis. Pode não ser o mais conhecido ou o mais cult, mas certamente Lang soube criar um divertido híbrido de gêneros que não é comum entre os Film-Noir. Passa abertamente pelo melodrama feminino, beira ao estudo freudiano, com uma pitada de filme de assassino em série (serial killer e ouso dizer, talvez o embrião do slasher, mas evidente que não chega a isso) e, claro, imprimindo sua autoria, Lang faz uma alegoria do processo criativo e artístico de sua carreira. Eis aqui a peculiaridade do austríaco-alemão na sua fase mais sombria no cinema americano. O que se sabe é que esse filme é parte de um conjunto de outros filmes bastante populares e até considerados Filmes B. A diferença é que, embora todos eles tenham aquela "precariedade" de fita B com uma trama que almeja criar no espectador livre associação (narração que, aqui, muda de forma desorientada de Bennett para Redgrave, sucessivamente), trazem algo muito particular e na maioria sofisticado, comum na década de 1940, afinal, foi a Era de Ouro do Cinema. Exemplos como: A MULHER DESEJADA (1947), de Renoir e A SÉTIMA VÍTIMA (1943), de Mark Robson. Todos com uma poderosa aura de sonho que lhe dão liberdade para misturar outros subgêneros. 

Existe uma polêmica envolvendo O Segredo da Porta Fechada. Os defensores de Lang até consideram uma heresia dizer que a qualidade onírica desse filme só aconteceu graças aos cortes impostos pela Universal que distribuiu o filme. Nada teria relação com o cinema de autor de Lang e, sim, graças aos tais cortes que o estúdio fez na montagem original do diretor. Contudo, a fita consegue se manter intacta em sua qualidade. E, veja bem, Lang é auxiliado por artistas que também ajudaram a criar uma atmosfera tão deliciosa de se assistir que felizmente não precisaria de explicações racionais. A carência de um final certo me satisfaz. Qual cinéfilo que não ama o The End que nos instiga a imaginar? Assim sendo, é imensurável o trabalho do diretor de fotografia STANLEY CORTEZ de filmes como: Mensageiro do Diabo (1955), de Charles Laughton e Soberba (1942), de Orson Welles. Aqui, Cortez faz um trabalho extremamente barroco. E, não menos importante, o compositor húngaro MIKLÓS RÓZSA (autor de trilhas memoráveis das obras-primas: Spellbound, Pacto de Sangue, El Cid, Ben-Hur, Fatalidade) que faz algo exuberante em sua música dando uma dimensão tão ricamente poética. Por isso, é um filme que não opta pelo constante fatalismo desalento do diretor. 

Quanto a mim, creio que vou sempre preferir mais as super-produções de alcunha pretensiosa de Fritz Lang, sobretudo até prefiro a sua fase alemã. Mas, jamais deixaria de recomendar uma visita ao sombrio e enigmático Secret Beyond the Door... descubra o que há atrás da porta. 





EUA
DRAMA - FILM-NOIR - ROMANCE - SUSPENSE
1h 39 min. 
🎥 Fritz Lang 
★★★☆☆





UM FILME DE FRITZ LANG
Secret BEYOND THE DOOR

ESTRELANDO: JOAN BENNETT   MICHAEL REDGRAVE
ANNE REVERE   BARBARA O´NEILL  NATALIE SCHAFER
ANABEL SHAW   ROSA REY  JAMES SEAY 
MARK DENNIS  PAUL CAVANAGH

Música de Miklós Rózsa

Fotografado por Stanley Cortez

Montagem Arthur Hilton

Direção de Arte
Max Parker  .   John Austin     
Russell A. Gausman
Figurinos Travis Banton

Produzido por 
Fritz Lang  .  Walter Wanger

Roteiro Silvia Richards
   Argumento/Story Rufus King

Dirigido por 
FRITZ LANG

© 1947 A Diana PRODUCTION / Walter Wanger Productions / Universal Pictures

Um comentário:

Hugo disse...

Este noir eu ainda não conferi.

De Fritz Lang eu gosto muito do clássico "M - O Vampiro de Dusseldorf" e dos filmes com Glenn Ford ("Os Corruptos" e "Desejo Humano").

Abraço

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