HOMENAGEANDO O CINEMA: ECOS DE JOHN FORD E HOWARD HAWKS
Em 1951, um grupo de estudantes de ensino médio amadurece em uma cidade sombria, isolada e atrofiada no oeste do Texas, que está morrendo lentamente, tanto culturalmente quanto economicamente.
PETER BOGDANOVICH é uma figura importante na minha educação cinéfila. Foi através dele, de sua fala, e vários documentários em vídeo, que conheci mais profundamente sobre a filmografia, toda a obra, do meu cineasta predileto: o mestre do suspense ALFRED HITCHCOCK. Tanto Bogdanovich e eu somos, entre milhares, dois fãs assíduos de Hitch. Sempre gostei do seu jeito de falar sobre o mestre e de seus ensinamentos. O próprio conviveu com ele e do mesmo gravou inúmeras entrevistas. Certamente A Última Sessão de Cinema (1971) - The Last Picture Show - é definitivamente o seu melhor feito como cineasta. E é sem dúvida um dos pilares da Nova Hollywood. É bom lembrar que Bogdanovich parecia ter encontrado a fórmula perfeita nesta fase do cinema americano da década de 70: refazer os velhos filmes com roupagem nova. Homenageou, por exemplo, Boris Karloff com seu "canto do cisne" em Na Mira da Morte (1968). Aqui em The Last Picture Show, emula o cinema de Ford e Hawks lindamente num toque de melancolia. E, talvez, realizou a grande fita cult de comédia que faz lembrar do clássico Levada da Breca (Bringing Up Baby, 1938, com Cary Grant e Katharine Hepburn - também dirigida por Hawks!) em Essa Pequena É Uma Parada (1972) - What's Up, Doc? - (para mim o melhor trabalho de Barbra Streisand) e, sem contar todo o cinema da década de 30 naquele que seria seu outro grande trabalho: Lua de Papel (1973) - Paper Moon - com Ryan e Tatum O´Neal. Mas, infelizmente, nem tudo são flores. Apesar dos filmes citados acima, Bogdanovich escorregou em várias cascas de bananas ao longo da carreira, sobretudo nos últimos anos. Nunca mais fez um grande filme ou uma obra-prima. Há muito tempo, começou a perder a genialidade quando insistiu em colocar a então namorada, Cybill Shepherd (mas ela está radiante nessa fita e também em outro clássico, Taxi Driver, de Scorsese) como estrela, construindo-lhe o decepcionante Daisy Miller (1974). E, desculpe, mas errou também no musical de Cole Porter, Amor, Eterno, Amor (1975 - At Long Last Love) massacrado pela crítica. Fica a impressão que foi preciso o casal se separar para conseguirem retomar suas respectivas carreiras. Cybill até fez uma série de TV de sucesso que levava o seu próprio nome! | Peter Bogdanovich |
A frase dele de que "todos os bons filmes já teriam sido feitos", parece aplicar-se a sua carreira depois de Lua de Papel. A ausência de sua mulher, Polly Platt, que cuidava do visual de seus primeiros filmes como diretora de arte e figurinista, lhe atrapalhou um pouco, também.
Com Marcas do Destino (Mask, 1985), admito que ele mostrou mão firme e sensibilidade, visto que a produção do mesmo é datada dos anos 80 - período oposto à década de 70 e da nova hollywood se reinventando. Não é uma obra-prima, todavia é um melodrama honesto que marcou o retorno de Cher às telas, mas comprou briga com o estúdio. Depois que a ex-namorada Cybill deu a volta por cima virando estrela de TV, Bogdanovich encontrou não só problemas com muitos projetos, mas também a falência, quando tentou distribuir sozinho o filme Muito Riso, Muita Alegria (1981), estrelado por ninguém menos que a diva Audrey Hepburn, mas também estrelada por outra ex-namorada sua; Dorothy Stratten, a playmate da Playboy que foi assassinada pelo marido (a história deles aparece no filme Star 80, dirigido por Bob Fosse, com Bogdanovich com pseudônimo, mas é claro que o crime envolve outro marido da atriz e não Bogdanovich, o também falecido Paul Snider que cometera suicídio logo depois!). Enfim, traumatizado pelo crime, descreveu-o num livro: The Killing of the Unicorn. Conformado, aceitou dirigir filmes para televisão e retomar sua atividade de crítico, que, pessoalmente, é aonde ele se sobressai mais hoje em dia. Publicando novos livros: "Afinal, Quem Faz os Filmes?" - Who the Devil Made It, 1997. E, dando depoimentos em DVD sobre a obra de seus amigos Orson Welles (também!) e Hitchcock, onde o conheci.
Mas, voltando a vaca fria, não vamos esquecer do maravilhoso A Última Sessão de Cinema. E, que filmaço! Aos apaixonados por filmes, eis um prato cheio. Revi esses dias e ainda me encanta. É certamente o filme mais sorumbático no bom sentido. Pode ser triste e sombrio, mas é reconfortante assisti-lo. Não sei explicar. Bogdanovich filma lindamente os anseios de uma época. Um período em que jovens almejavam transformações. Naquele tempo em que todos eles queriam porque queriam quebrar regras! Bogdanovich faz um estudo obstinado se atendo a ideias e ideais nos quais acreditava. E sem medo de parecer antiquado, diga-se.
Faz com muita esperteza uma belíssima adaptação do livro de Larry McMurtry que mais tarde ganharia o Oscar por colaborar no roteiro de O Segredo de Brokeback Mountain (2005) de Ang Lee. Bogdanovich emula sem medo John Ford e Howard Hawks no momento em que uma nova geração de jovens artistas/cineastas (nesta mesma época surgiam Steven Spielberg, George Lucas, Martin Scorsese, Brian De Palma, Francis Ford Coppola, William Friedkin e outros) que foram pioneiros por direcionar uma nova produção de filmes para um rumo mais autoral, livre e obviamente visceral (sabemos que a década de 70 foi um período bem sombrio e reflexo de uma sociedade desencorajada).
The Last Picture Show é uma premissa de transição para o crescimento, a maturidade. Passada em uma cidadezinha empoeirada do Texas. E é um adeus aos anos 50, captando as novas mudanças nas tradições e nos novos interesses da América. Há uma safra de jovens atores no elenco que fariam grande carreira. Ali estão em cena, todos esplêndidos: Ellen Burstyn, Cybill, Jeff Bridges (lindo, muito lindo!), Timothy Bottoms e Randy Quaid, este último certamente no melhor papel de sua carreira. E num ótimo contraponto, os jovens atuam ao lado de dois grandes veteranos, e que inclusive ganharam Oscar de coadjuvantes por esses papéis: Ben Johnson e Cloris Leachman - num momento na qual todos procuram um lugar no novo mundo.
Pode ser um filme sombrio, mas o coração de Bogdanovich está no lugar certo e suas intenções são honestas. Ele injeta tamanha beleza de direção ajudado por uma fotografia em preto e branco estupenda criada pelo mestre e veterano Robert Surtess (Ben Hur, Golpe de Mestre, A Primeira Noite de um Homem). É a inocência com fome de saber onde tudo se transforma em experiências. E o mais curioso, embora tenha vestígios do velho cinema, Bogdanovich não está interessado em criar nostalgias. A melancolia presente é o ponto mais interessante do filme.
A Última Sessão de Cinema, além de ser um belíssimo título, já é um clássico que merece ser prestigiado e revisitado. Pode ser que um dia façam um filme com ecos de Peter Bogdanovich.
EUA
DRAMA
1h 58 min.
🎥 Peter Bogdanovich
★★★★★
UM
FILME DE PETER BOGDANOVICH
Estrelando:
Timothy
Bottoms
Jeff
Bridges
Cybill
Shepherd
Ben
Johnson
Cloris
Leachman
Ellen
Burstyn
Eileen
Brennan
Clu
Gulager
Sam
Bottoms
Sharon
Ullrick
Randy
Quaid
Joe
Heathcock
Bill
Thurman
Barc
Doyle
Jessie
Lee Fulton
Casting
Ross Brown
C.S.A.
Direção
de Arte e Figurinos por .... Polly Platt
Montagem
.... Donn Cambern . Peter Bogdanovich
Produzido
por Stephen
J. Friedman
Roteiro
Larry McMurtry . Peter
Bogdanovich
Baseado
em obra de Larry McMurtry
Dirigido
por
Peter Bogdanovich
Uma
apresentação da COLUMBIA PICTURES
© 1971 Last Picture Show Productions / BBS Productions / Columbia Pictures
Corporation




2 comentários:
Grande filme de Peter Bodganovich.
Com um tema forte para época, ótimas interpretações e a coragem de filmar em preto e branco.
Abraço
Hugo: Obrigado pelos comentários...
realmente, Bogdanovich ousou com esse filme. E resultado é o que disse no meu texto, é o seu melhor trabalho.
Abraço.
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