sexta-feira, 27 de julho de 2018

ūüé¨ A Montanha dos 7 Abutres (Ace in the Hole, 1951) ūüé• Billy Wilder

ALVORO√áO MIDI√ĀTICO 


Um frustrado ex-jornalista da cidade grande que agora trabalha para um jornal de Albuquerque explora uma história sobre um homem preso em uma caverna para voltar a iniciar sua carreira, mas a situação rapidamente se transforma em um circo descontrolado.


Um filme fundamental para estudantes de jornalismo, cinema e televis√£o. Todos os cursos de comunica√ß√£o voltados para essas √°reas recomendam aos alunos um dos filmes mais estranhos e pungentes que Hollywood j√° produziu. Pelas m√£os de um grande cineasta na qual tenho predile√ß√£o, BILLY WILDER e aos poucos vou escrevendo sobre a sua obra aqui no blogue. J√° comentei sobre alguns dos cl√°ssicos marcantes do cineasta, mas ainda nunca havia dito uma linha sequer desta fita que √© curiosa tamb√©m por ser a √ļnica parceria de Wilder com o astro KIRK DOUGLAS (uma das poucas lendas vivas do cinema americano). √Č dif√≠cil falar sobre o filme. N√£o sei qual a raz√£o. Talvez ele passe uma sensa√ß√£o de estranheza. Toda vez que revejo, no t√©rmino da sess√£o, aquele gostinho amargado fica no ar. Mas √© de fato o melhor exemplo ilustrativo do sensacionalismo barato e do espet√°culo de p√£o e circo criado pela m√≠dia. E vemos isso todos os dias ao ler mat√©rias na internet e principalmente em programas de TV de cunho entretenimento e telejornais apelativos ou simplesmente manipulativos, ali√°s, os mais perigosos e a maioria deles produzidos pelo monop√≥lio de m√≠dia nacional da Rede Globo.  

At√© que ponto as pessoas podem ir para ter os seus quinze minutos de fama? √Č poss√≠vel medir car√°ter do ser humano quando o assunto √© se dar bem, isto √©, de se apropriar de uma situa√ß√£o e fazer uso ego√≠sta dela? √Č um filme diferente de Wilder, embora tenha o seu humor √°cido. Mesmo assim, √© algo que nunca esperei do diretor. Sua not√°vel longevidade (faleceu em 2002 com 6 pr√™mios Oscar na carreira num total de 27 filmes como diretor e uma infinidade de cr√©ditos como roteirista) permitiu que lhe fossem prestadas todas as honras e nada mais justo. A lista de grandes filmes que Billy Wilder dirigiu se tornaram imediatamente em obras de grande resson√Ęncia. √Č impressionante. "Quanto Mais Quente Melhor", por exemplo, foi votado com justi√ßa pelo American Film Institute como a melhor com√©dia americana de todos os tempos. Como s√£o igualmente memor√°veis as frases inteligentes que lhe s√£o atribu√≠das. Nunca se deixou tamb√©m fazer justi√ßa quanto √† qualidade de seus colaboradores, de quem conseguiu extrair sempre o melhor, tanto o roteirista parceiro I.A.L. DIAMOND quanto CHARLES BRACKETT, na primeira fase. Ou √† versatilidade com quem passou por todos os g√™neros, ali√°s, fez o melhor filme Hitchcockiano que n√£o √© de Hitchcock, obviamente falo de "Testemunha de Acusa√ß√£o", o melhor filme sobre Hollywood ("Crep√ļsculo dos Deuses" - cl√°ssicos dos cl√°ssicos) e um dos melhores FILM-NOIR que era sua especialidade (inclusive A Montanha dos 7 Abutres), mas que nada se compara a algo como PACTO DE SANGUE (que em breve irei rever e postar...) e um de seus feitos mais gloriosos, o de conseguir transformar Marilyn Monroe numa grande atriz fazendo a parte mais dif√≠cil com ela: a com√©dia. Monroe foi uma das maiores comediantes do cinema com toda a folga. N√£o vou negar e tapar o sol com a peneira e n√£o admitir que, sim, ele teve os seus fracassos, mas em geral por ser ir√īnico ou sarc√°stico demais. Um dos grandes erros de Hollywood nas √ļltimas d√©cadas do s√©culo foi n√£o ter financiado novos filmes para Wilder enquanto ele ainda podia e, reza a lenda de que ele reclamava do processo burocr√°tico na qual se perdia todo o tes√£o, encanto, ou seja, que se perdia mais tempo fazendo reuni√Ķes e contratos do que filmando. Wilder √© um nome para se estar entre os quatro ou cinco maiores diretores da hist√≥ria. E, o melhor: esta afirma√ß√£o √© un√Ęnime. Unanimidade inteligente, diga-se e, desculpe Nelson Rodrigues, mas aqui nesse caso longe de ser burra!



Bem, com este ep√≠logo sobre Wilder, posso come√ßar afirmando que vejo A Montanha dos 7 Abutres - Ace in the Hole (1957)  como um  dos filmes mais cult que ele j√° realizara. Tem o toque do film-noir e tenho d√ļvidas quanto ao seu sucesso na √©poca, me digam voc√™s ao ler esse post. S√≥ sei que √© uma fita das mais √°cidas e de um modus operandi austero de Billy. Mas, que a verdade seja dita, ele encontrou o protagonista certo em Kirk Douglas. Uma √ļnica vez. Da mesma forma que Hitch s√≥ trabalhou com Janet Leigh em um filme em especial. Fica a impress√£o que fora um trabalho t√£o pungente para ambos que n√£o havia necessidade de trabalhar em outro projeto.

A premissa concentra-se em todo o frenesi midi√°tico orquestrado por um jornalista amargurado, Chuck Tatum (Douglas) com toda uma arrog√Ęncia e inconveni√™ncia impressionantes. Ele, louco por um furo jornal√≠stico na qual o colocaria de volta no mapa, ca√≠ de paraquedas (no sentido figurado) em um jornal local numa pacata cidade pequena do Novo M√©xico. O motivo? Foi despedido de outros ve√≠culos de comunica√ß√£o na megal√≥pole. O assunto que ele estava desesperadamente procurando parece ter sido indicado pelo diabo...e eis que decide fazer a cobertura dram√°tica sobre um pobre minerador, interpretado brilhantemente por RICHARD BENEDICT (1920-1984 / tamb√©m era diretor tendo dirigido algumas s√©ries de sucesso como "As Panteras" e "Agente 86") que esta vivendo um pesadelo enquanto fica preso em uma caverna depois de um deslizamento. √Č a chance de Tatum provar para todos que ele √© capaz de mostrar para o mundo uma hist√≥ria real envolvente sem antes pensar em si mesmo e em sua carreira t√£o mais no fundo do buraco onde se encontra o minerador. Sua esperteza √© tanta que ele consegue convencer as autoridades locais, como o xerife da cidade, convencendo-os de atrasar o resgate com a promessa de atrair turistas e curiosos de plant√£o e, com isso, todos seriam personagens de uma "comovente" e real mat√©ria de cunho humano. S√≥ que n√£o. A incita√ß√£o de Tatum √© tamanha que tudo come√ßa a desmoronar (at√© na cabe√ßa do minerador literalmente) num cen√°rio t√£o hipnotizante criado por Wilder na medida em que tudo parece ao mesmo tempo simb√≥lico (um jornalista no buraco/ uma v√≠tima presa em outro) e que emula a espetaculariza√ß√£o de um reality show (hoje em dia t√£o comum entre as massas).

Ler a obra marxista "La soci√©t√© du spectacle" de Guy Debord (1931-1994) e assistir ao filme √©, em minha opini√£o, a melhor forma de esclarecimento da mente e assim compreender o qu√£o real s√£o situa√ß√Ķes do g√™nero. Embora existam outros cl√°ssicos do cinema a abordar t√£o lindamente a sociedade do espet√°culo. Pra come√ßar, existe um document√°rio de 1974 realizado pelo pr√≥prio Debord de mesmo nome, mas, Welles fez o dele tamb√©m em CIDAD√ÉO KANE (1941) e ap√≥s  Kane, talvez o maior filme a tratar do chamado Quarto Poder e o modo como influencia a sociedade, e grandes obras relativamente recentes a respeito do tema, como Todos os Homens do Presidente (1976, de Pakula)Rede de Intrigas (76, de Lumet), S√≠ndrome da China (1979, de James Bridges), O Quarto Poder (1997, de Costa-Gavras) e v√°rios outros, A Montanha dos Sete Abutres ainda consegue se manter em uma posi√ß√£o de grande destaque, extremamente atual em sua abordagem, mesmo passados 67 anos desde o seu lan√ßamento. Acredito que o roteirista e diretor Dan Gilroy ao realizar "O Abutre" (Nightcrawler, 2014), com Jake Gyllenhaal, tenha bebido desta fonte. Certamente o exemplo mais pr√≥ximo dos filmes mais recentes, embora tenha outro tipo de premissa. 

Há momentos no filme, além de Douglas, feitos magistralmente pela atriz JAN STERLING (1921-2004) que era perfeita ao interpretar mulheres loiras fatais dos film-noir. A vamp que é a própria esposa do minerador almeja tirar proveito da situação. Mais uma pessoa materialista que adentra no jogo. Sua vilania chega a alçar voos mais altos do que o cínico homem vivido por Douglas. Mesmo porque ela o seduz.

Verbalmente mordaz. A Montanha dos 7 Abutres pode ser uma agress√£o a todos os espectadores. E n√£o creio que Wilder foi longe demais. N√£o acho que ele tenha ido ao fundo do po√ßo com esse filme. N√£o. Pois √© um filme que n√£o tem salada de macarr√£o no domingo e nem patinhos no lago. N√£o √© uma hist√≥ria bonitinha. E n√£o tem Marilyn Monroe tendo a saia levantada pelo respiradouro do metr√ī. O buraco √© outro. 


EUA
DRAMA-FILM-NOIR
1h 51min. 
ūüé• Billy Wilder 
★★★★★




A
PARAMOUNT
PICTURE

KIRK
DOUGLAS

ACE IN
THE HOLE
© 1951 Paramount Pictures


ESTRELANDO TAMB√ČM:
JAN STERLING    ROBERT ARTHUR
PORTER HALL   FRANK CADY
RICHARD BENEDICT
RAY TEAL    FRANK JACQUET


PRODUZIDO e  DIRIGIDO
POR
BILLY WILDER

Roteiro de
WALTER NEWMAN
LESSER SAMUELS  e  BILLY WILDER

Fotografado por ...................... CHARLES LANG    A.S.C
M√ļsica de .................. HUGO FRIEDHOFER
PRODUTOR ASSOCIADO ........... WILLIAM SCHORR

2 coment√°rios:

Hugo disse...

Grande filme com um tema que continua atual, ou melhor, mais comum ainda nos dias de hoje.

O jornalista que ao invés de noticiar prefere "criar" a notícia infelizmente é quase uma regra na atualidade.

Por isso a descrença na mídia convencional.

Não dá para esquecer a ótima atuação de Kirk Douglas.

Abraço

Paulo Telles disse...

Sauda√ß√Ķes Rodrigo!
Primeiramente, a agradecer pelo coment√°rio feito sobre a postagem em homenagem a William Holden no meu blog. N√£o tenho recebido mais notifica√ß√Ķes do blogger sobre coment√°rios, e por acaso vasculhando no setor de configura√ß√£o √© que vim a descobrir seu parecer sobre este not√°vel astro do s√©culo XX. Muito obrigado e te respondi l√°.

Quanto A MONTANHA DOS SETE ABUTRES, é um marco na filmografia deste grande cineasta que foi Billy Wilder, um diretor a frente de seu próprio tempo, com grandes obras inesgotáveis para a posteridade, sem contar o magnífico desempenho de Douglas, um tanto vilanesco e transtornado em busca de um furo de reportagem à custa da desgraça alheia.

Parabéns pela brilhante resenha. Abraços do

PAULO TELLES
Radialista/Editor do Blog FILMES ANTIGOS CLUB- A NOSTALGIA DO CINEMA.
http://articlesfilmesantigosclub.blogspot.com/

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