ACENDER A FAGULHA!
Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante…” ou melhor dizendo, não faz muito tempo, numa galáxia muito, muito distante... que um filme da saga de Guerra nas Estrelas, hoje em dia vulgo Star Wars, causou tanta polêmica na internet. Não bastasse a balbúrdia da venda das empresas de George Lucas decidida pelo próprio e comprada pela Disney, gerando desconfiança de fãs incrédulos com a certeza de que a nova casa dos Jedi iriam estragar o legado com os novos filmes. Neste cenário, e falo por mim, não tem jeito, continuo sendo um entusiasta. Não sou purista a ponto de querer uma petição (realizada por puristas desocupados , diga-se) para tirar o recente capítulo da saga de circulação só porque ele é contrário a tudo que Lucas havia criado. Bobagem não gostar de algo e não querer que ele exista. Não afetará em nada os filmes da trilogia original. Mesmo fato ocorreu na época do lançamento do amaldiçoado Episódio 1 - A Ameaça Fantasma (que hoje em dia concordo que é bem abaixo dos demais) e, para ser bem franco, vejo problemas em alguns filmes, não só no Ameaça Fantasma, mas também no seguinte: "Ataque dos Clones" e no recente spin-off; "SOLO", um filme comandado por Ron Howard que tem vários problemas de roteiro desde o início de seu projeto.
Enfim, aprecio mais a desforra de Lucas na produção de 2005: "Eps. III - A Vingança dos Sith", mas que ele só fez para agradar aos fãs para não ter mais problemas, aliás, o mesmo já confessou que decidiu se aposentar porque não era mais divertido criar esses filmes. Passado traumas e desabafos, a Disney ganhou notoriedade com a fita anterior comandada por J. J. Abrams e a produtora/presidente Katheelen Kennedy, um dos maiores sucessos que encheu os cofres do Tio Patinhas. "O Despertar da Força" era uma espécie de reciclagem/retrospectiva da trilogia original, principalmente do primeiro filme de 1977. Sem grandes novidades, seguindo as mesmas estruturas narrativas, mesmo assim, um baita filme de Star Wars e mantendo a marca intacta do jeito que os admiradores querem. Certamente o maior desentendimento com este novo capítulo, "Os Últimos Jedi", seja pelo fato do diretor-roteirista Rian Johnson almejar algo totalmente diferente e, creio, talvez um exercício dele para o que o mesmo irá fazer com uma nova e futura trilogia com personagens totalmente novos (?).
Johnson vinha do ótimo sci-fi de ação LOOPER: ASSASSINOS DO FUTURO (Looper, 2012) e já havia feito episódios da maior série de TV da história: "BREAKING BAD". Como é de praxe a cada novo filme da saga a aura de mistério no ar faz surgir entre os fãs as mais diversas teorias. O fato é que frustou quase que unanimemente já que Johnson rompe com tudo isso. Mas rompe mesmo! O Luke não é aquilo que se esperava e nem o é mesmo para o próprio intérprete; Mark Hamill, mas que segue a visão do diretor como o mesmo sempre disse quanto ao seu lugar como ator, muito embora tenha discordado do roteiro desde o início. O importante é que há muito tempo não via o Hamill tão bem e tão digno contabilizando a sua idade real com a de seu eterno herói criado há 40 anos atrás.
O filme pode não ter agradado a maioria, entretanto, continua sendo puramente Star Wars na essência. A jornada do herói continua intacta e o simbolismo, também. Existe algo bonito neste capítulo, muito mais interessante até do que a famosa quote: "Que a Força Esteja com Você." Nos letreiros e em vários outros momentos do filme, principalmente no primeiro discurso da personagem da querida Laura Dern (aliás, magnífica. Uma grata surpresa que veio para somar no filme) a questão de "acender a fagulha". Isso porque na trama os novos personagens que pegarão a tocha dos mais velhos tem que aprender com os erros e saber ouvir. Pois é, ei-lo! Outra lição de moralidade tradicional da saga.
Todos esses novos heróis são pessoas inquietas que preferem não seguir ordens restritas. A figura do melhor piloto de Leia, Poe Demeron, o ótimo Oscar Isaac que ganha mais espaço e protagonismo, está sempre batendo de frente com a nova e substituta general (fica a impressão de uma possível atração sexual nas entrelinhas entre ambos). Ao mesmo tempo em que Finn (John Boyega) faz o mesmo quando não escuta Poe, o problema maior é que de fato não ganhou a mesma notoriedade comparado a aventura anterior. O seu arco é o mais desinteressante que divide com a novata Kelly Marie Tran, e que, assim como na estreia de Lando Calrissian, Rose é uma personagem que faz lindamente a sua representatividade. Isso pelo fato de praticamente não aparecer muitos atores orientais na série. Apesar de estar no pior núcleo do filme, no entanto, é uma coadjuvante ótima e uma personagem de várias camadas. E, finalmente, a dupla principal. Os dois antagonistas que causaram polêmica em suas cenas de "contato físico", algo inédito até mesmo quanto a Força. Rey é praticamente o que Luke era no passado. Nunca enxerga o que está diante de si, inquieta e esperançosa, Daisy Ridley é uma força da natureza e a escolha perfeita para o papel que lhe caiu como luva. Com o seu bastão ou com o sabre-de-luz de Anakin Skywalker (detalhe mal explicado ainda nesta nova trilogia) ela demonstra grande poder e habilidade, assim como Anakin e Luke. Portanto, não consigo entender as críticas quanto as motivações dela e toda a construção da personagem, ainda nos moldes clássicos de Joseph Campbell. E, obviamente, o vilão, que aqui resolve destruir o fantasma de Darth Vader para sempre. Ele quebrando aquela máscara ridícula em um instante de raiva é o momento de grande ressonância do grande ator que esta se provando ser; Adam Driver que tem neste capítulo um estudo mais aprofundado e analítico quanto a psiquê do ex-Ben Solo e que agora atende pela sua alcunha maléfica: Kylo Ren. Tudo bem, ele pode não ser, aliás, nunca será, o Vader antológico e é justamente por isso que ele se mostra, finalmente!
Diferente dos heróis altruístas ele é obviamente egoísta e a sua inquietação ("fagulha") é explanada no Golpe de Estado que o mesmo efetiva. Todos se chocam com a morte do Líder Supremo Snoke que mais parece o Hugh Hefner de robe sentado em seu trono (imaginem se ao invés dos guardas Praetorian guardando a segurança de seu mestre fossem as coelhinhas?) interpretado lindamente pelo mestre da captura de movimentos, Andy Serkins, é uma parte do filme que mais tenho predileção. Mas não existem maiores explicações de sua origem nos dois filmes, certamente aparecerá em alguma HQ ou Game, não sei. Na verdade, estou sempre mais conectado com os filmes. E, quem se importa? Eu não. Nunca me apeguei nem mesmo ao Imperador!
De qualquer forma, nota-se que é assim que Kylo cumpre o seu destino. A mesma maldição dos Sith e não muito diferente de Dooku ou Anakin quando o mesmo traiu os Jedi (e o Sith em sua redenção final!). Nem preciso dizer que a cena de batalha de sabres neste filme é simplesmente espetacular...ou preciso? Quase meia hora havia se passado e até o momento nenhuma luta de sabres tradicional havia sido travada. Embora todas as cenas na Ilha Misteriosa de Luke tenha sido uma das coisas mais sensacionais de toda a saga, assistimos pela primeira vez antagonistas lutando lado a lado em combate de mera sobrevivência e interesses pessoais. Não se enganem, mesmo Rey tendo a luz, a bondade, a esperança e a ingenuidade de trazer Kylo para o lado dela é isso que a motiva lutar ao seu lado. A vaidade que o mestre Luke havia lhe dito e a mesma não tinha entendido. Por mais que as intenções do jovem guerreiro sombrio seja adquirir poder destruindo o que é velho deixando o passado para trás. Assim como ela, a seu modo, ele só não a matou porque nutria a mesma esperança de trazê-la para o seu lado, seus interesses. Como não acreditar num roteiro desses? É tão Star Wars. É tão simples e genial. O bem e o mal perfeitamente representados. Com isso, os jovens são a fagulha. Trazem à luta suas irresponsabilidades que podem causar destruição, mas aprendem com os erros. A rebeldia é o que a saga sempre trabalhou e sempre irá trabalhar não importa a mudança de tom e tempo. Embora eu tenha feito essa interpretação, a fagulha ainda é, também, ao pé da letra, o "atear fogo", principalmente na cena inicial no espaço envolvendo um encouraçado da Primeira Ordem vs. a impaciência de Poe Dameron e o custo de vida dos poucos sobreviventes da Resistência que chateia Leia. E, ademais, trazer a esperança de volta à galáxia sobrevivendo e não morrendo. Ou seja, SW continua a trabalhar muito bem com esses temas da ética, dos princípios morais, das escolhas individuais e coletivas, como a virtude, o bem, a honestidade e a soberba. O velho e o novo desde os tempos de Uma Nova Esperança lá com o George Lucas e o Alec Guinnnees. Portanto, como podem ter menosprezado tanto este filme?
Em outras palavras, A Jornada do Herói é o que mantêm Star Wars, ao menos a trilogia original escrita e produzida por George Lucas (1977-1983), clássica e intacta. Mesmo por todas as adversidades e decisões erradas do próprio Lucas (principalmente na trilogia prólogo – 1999-2005), a saga é certamente algo único, original. Penso que é errado considerar todo este universo uma obra da sci-fi propriamente e até já me corrigi. Para mim, obras como “Star Trek” - Jornada nas Estrelas - flertam muito mais com essa ideia. O que Lucas fez foi ressuscitar a velha e boa Space Opera. Mostrar para gerações juvenis que a vida não é um monte de lixo e que vale a pena ter esperança e trilhar o caminho certo. Star Wars é a luta do bem contra o mal, mas sempre foi um híbrido, uma banana split, diga-se, de Flash Gordon, Buck Rogers, Akira Kurosawa e o melhor do western de John Ford (é evidente a referência a “Rastros de Ódio” na fita de 77). Foi assim que conseguiu criar um design tão novo, fantástico e que grudou como chiclete. Virou moda, uma marca pioneira da cultura pop pós-moderna. Um misto tecnológico e rudimentar e dramaticamente orientando-se em ideias do mitologista Joseph Campbell. Por isso admiro tanto a franquia. Além de ser uma divertida sessão matinê, claro, sem perder tal espírito.
De novo, “O Despertar da Força” (2015), de J. J Abrams, foi um filme redondo e seguro para capturar de volta o público mais velho, mas sem esquecer de introduzir o épico espacial para uma audiência mais jovem, e muitos dos guris que sequer conheciam os personagens. Estruturalmente, o primeiro filme desta (agora sim, devemos dizer, ‘Nova Trilogia’) trazia elementos do original (“Uma Nova Esperança”), mas também um pouco de “O Império Contra-Ataca” ( – a morte de Han Solo, evidenciando o sacrifício típico do herói que já fora congelado) e planetas que lembravam os antigos filmes, "Retorno de Jedi", idem (o deserto sucateiro de Rey, o gélido local da base dos vilões e a floresta onde residia a pirata de Lupita Nyong'o - que mal aparece neste VIII). E, obviamente, o filme na qual os jovens aceitam conselhos do velho (Han Solo fazendo o papel de Obi-Wan e Rey o de Luke, assim como Finn o de Solo...). Contudo, OS ÚLTIMOS JEDI, definitivamente, tira Star Wars dos eixos, mesmo que tenha o espírito, os ecos de outrora.
Além de ser plasticamente deslumbrante. Sim. É o filme mais bonito visualmente até o momento, sobretudo no último ato em um planeta onde o sal é naturalmente vermelho criando um espetáculo “vermelho-sangue” nas cenas de batalha, em trincheiras, no solo do planeta ou mesmo entre as escondidas cavernas, o que explica todo o marketing evidenciando a cor. Só que o mais importante: o que poderia ser claro como água não é exatamente assim.
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| Momento especial entre Mestre e Pupilo |
Mark Hamill no melhor papel de sua carreira, fez de seu mestre Jedi um homem recluso (até mais eremita que o seu velho professor Ben Kenobi), amargurado, com medo, está relutante em ensinar os caminhos da força para Rey (sem dúvida a melhor nova personagem protagonista já criada na série...e Daisy Ridley reina! O momento fenomenal dela no "espelho" enfrentando o seu destino remete Luke na caverna em "Império".). É simplesmente fantástica a evolução e jornada de Luke Skywalker neste filme. Aliás, emocionou-me a ponto de crer fielmente no poder da força e no famoso dizer: “Que a Força Esteja com Você” (aquilo que Lucas jogou fora nos episódios I, II e III), felizmente foi recuperado aqui.
É bom ressaltar que o diretor-roteirista Rian Johnson foi ousado em mostrar um lado diferente da mitologia, até mesmo dramaticamente falando. É Star Wars na essência, mas abre caminhos para novas ideias, outros rumos...por exemplo, a dispensa de personagens criados, a priori, para vender bonequinhos licenciados, aqui, sem grandes problemas, são postos de lado e ou/ aniquilados, por exemplo, a cromada stormtrooper Capitã Phasma de Gwendoline Christie. Diferente da vergonha que era se livrar de um Jar Jar Binks (risos).
O foco aqui é o novo quarteto: Rey (Daisy, a minha nova movie-star para amar e amar...), Kylo Ren (Adam Driver sem resquícios de redenção e cada vez melhor na sua performance, aqui não há a má impressão de garoto mimado), Finn (John Boyega – outra grande revelação de Star Wars, embora um tantinho apagado no filme desta vez) e Poe Dameron (o sempre ótimo Oscar Isaac, que agora tem grande participação no filme garantindo sua estadia na Resistência. Imaginem se J.J. tivesse realmente decidido matá-lo?). Johnson e a produtora Kathleen Kennedy, abraçam a ideia do novo assumindo o lugar do velho. Dos jovens pupilos, mesmo rebeldes e fazendo tudo errado, tendo ainda muito que aprender com seus mentores, mas os mesmos também aprendem com o fracasso. Pra mim é Star Wars na veia. Ensinamentos filosóficos inspirados em mantras orientais e contado de um jeito despretensioso e divertido.
O filme não só acendeu aquela fagulha de fã dentro de mim, mas, sem sombra de dúvida, “Os Últimos Jedi” (mesmo não respondendo algumas questões e creio que nem irão responder no Episódio IX) é um dos grandes filmes do ano.
Emocionante. Divertido (as piadas são várias e os passarinhos, os Porgs, são fofos, porém longe de se igualarem a certa irritação como acontecera com os Ewoks). A propósito, fiquei estupefato com o que foi decidido com a Leia. A querida e saudosa Carrie Fisher. (1956-2016). Há momentos tão belos com sua heroína, aliás, balançou meu coração numa das cenas mais lindas de Carrie que também, assim como Hamill, atua lindamente tendo o seu digno revival, por assim dizer. Bom, nem preciso dissertar como, mas o filme é uma homenagem a Carrie e o faz tão dignamente que a plateia não se segura! Fico animado com a ideia de seu retorno em imagens não utilizadas para o Episódio VII. Veremos.
Os últimos serão os primeiros. A esperança existe quando se acredita que tudo não é o fim. Palmas.
Valeu, Rian Johnson!
Eua
Aventura/Fantasia/Ação
2h 32 min.
★★★★☆
UMA PRODUÇÃO LUCAS FILM LTD. UM FILME DE RIAN JOHNSON
Star
wars
EPISODE VIII
THE LAST JEDI
Estrelando:
MARK HAMILL CARRIE FISHER
ADAM
DRIVER DAISY RIDLEY
JOHN
BOYEGA OSCAR ISAAC
ANDY
SERKIS LUPITA NYONG'O
ANTHONY
DANIELS como C-3PO
DOMHNALL
GLEESON GWENDOLINE CHRISTIE
KELLY
MARIE TRAN LAURA DERN
com FRANK OZ como yoda
e BENICIO DEL TORO
Co-estrelando: BILLIE LOURD JOONAS SUOTAMO
JUSTIN THEROUX
Música JOHN WILLIAMS Direção
de fotografia STEVE YEDLIN
montagem BOB DUCSAY Direção
de arte RICK HEINRICHS
Efeitos
especiais criados na INDUSTRIAL
LIGHT & MAGIC
Figurinos MICHAEL KAPLAN
Produtor
executivo J.J. ABRAMS
Produzido
por
KATHLEEN
KENNEDY (P.G.A.)
RAM
BERGMAN (P.G.A.)
Baseado
nos personagens criados por GEORGE
LUCAS
Escrito
e dirigido por RIAN JOHNSON
©2017 WALT DISNEY/ LUCAS FILM LTD.














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