terça-feira, 28 de agosto de 2018

ūüé¨ O Estranho (The Stranger ,1946) ūüé• Orson Welles

O BADALAR DO REL√ďGIO DA MORTE

SESSÃO SURPRESA PARTE XI
Um investigador veterano da Comiss√£o de Crimes de Guerra viaja at√© Connecticut para encontrar um infame nazista.


Um filme de ORSON WELLES (Cidad√£o Kane, A Marca Da Maldade) e o que eu digo sempre. Welles era um artista a frente de seu tempo e fez muito mais para  o cinema do que apenas Cidad√£o Kane. Diretor, produtor, roteirista e frequentemente astro absoluto do ciclo cl√°ssico do FILM-NOIR (vide tamb√©m: O Terceiro Homem dirigido por Carol Reed). O Cinema Rodrigo traz na Sess√£o Surpresa de hoje um dos cults do cineasta. Certamente o menos conhecido dele. Facilmente dispon√≠vel no cat√°logo da NETFLIX. Assistam e n√£o percam a oportunidade de prestigiar um Thriller de primeira linha. Curiosamente, O ESTRANHO foi um projeto encomendado para o diretor e em se tratando de Welles, eis uma oportunidade de ouro e um grande desafio, isto √©, dirigir uma fita dentro dos padr√Ķes comerciais do sistema Hollywoodiano, no caso, para o seu produtor, SAM SPIEGEL (1901-1985), uma lenda do cinema respons√°vel por obras-primas tais quais Lawrence da Ar√°bia (1962), Sindicato de Ladr√Ķes (1954), A Ponte do Rio Kwai (1957) e Uma Aventura na √Āfrica (1951) para citar apenas alguns. Entretanto, por mais que o filme tenha
tido um resultado padrão é impossível negar o poder visual e tudo aquilo que ainda possa ser considerado "fora da caixinha" na visão de Orson Welles.

The Stranger segue a linha dos filmes sobre persegui√ß√£o de criminosos nazistas do p√≥s-guerra. Na verdade, atrav√©s da Netflix,foi que pude conferir pela primeira vez. √Č impressionante como logo de cara eu j√° notei que este filme, hoje ressuscitado, √© provavelmente o melhor representante deste subg√™nero. Obviamente existem outros filmes similares. Sem d√ļvida os mais famosos s√£o INTERL√öDIO (1946) de Alfred Hitchcock e ACOSSADO (1945) de Edward Dmytryk (favor n√£o confundir com o outro Acossado de 1960 do Godard!).

Especialista em interpretar vil√Ķes asquerosos, O Estranho n√£o foi uma exce√ß√£o para Welles. Ele entende bem a alma da vilania. Do homem capaz de tudo para se dar ao luxo de vencer, ou de pelo menos tentar, no final. Mas o mal nunca vence, n√© mesmo? Embora na fic√ß√£o tenha feito um protagonista malvado, a fita remete √† reputa√ß√£o de Welles no que se diz respeito a ser assumidamente  antifascista  e creio que foi o real motivo por ter aceitado dirigir e estrelar. Em outras palavras, O Estranho, tamb√©m, acaba sendo um filme que consegue lindamente encontrar eco em um romance que ele considerou filmar antes de decidir que Kane seria o seu filme de estreia. O projeto em quest√£o chamava-se "The Smiler With a Knife" escrito por Nicholas Blake sobre o fascismo no Reino Unido.

O come√ßo pode ser um tanto enfadonho, mas que vai melhorando na medida em que Welles nos projeta para aquela pacata cidadezinha americana e principalmente na cena em que testemunhamos um assassinato. E que elenco! Welles sempre teve sorte com atores em seus filmes. Na premissa,o investigador veterano designado pelo Governo a sair a procura de um ex-nazista √© nada mais e nada menos do que o extraordin√°rio EDWARD G. ROBINSON (1893-1973) como Wilson. Lend√°rio ator famoso pelo ciclo de filmes policiais e de gangster noir da Warner e tamb√©m de participa√ß√Ķes de grande resson√Ęncia em filmes como Pacto de Sangue (1944) de Wilder e Os Dez Mandamentos (1956) de DeMille. S√≥ que ele atuou em tantos filmes que cito apenas alguns da mostra. Ele est√° no encal√ßo de um homem a priori carism√°tico, mas que supostamente foi um nazista cruel e respons√°vel por atrocidades em campos de concentra√ß√Ķes. Ele atende pelo nome de Franz Kindler (Welles) que j√° come√ßa no filme tenso e com cara de assustado. Para tanto, a trama tinha que se passar em uma pequena cidade universit√°ria do Connecticut na qual Kindler leciona e √© adorado pelos seus alunos. Uma figura de respeito. Gentil, bondoso e muito bem casado. Quem iria imaginar o contr√°rio? Em um jogo de gato e rato onde as apar√™ncias enganam, Kindler √© agora Charles Rankin e ensinar Hist√≥ria √© a profiss√£o que escolhera para os fins de seus dias. Sua esposa √© a ador√°vel Mary, outra diva do cinema na qual tenho predile√ß√£o;LORETTA YOUNG (1913-2000) a vencedora do Oscar por "Ambiciosa" (The Farmer's Daughter, 1947) de H.C. Potter, seu filme seguinte e que reza a lenda que se envolveu romanticamente com Welles nesse per√≠odo. Young era uma atriz perfeita para essa fase noir da d√©cada de 40 e principalmente nos pap√©is de esposas. Ela o ama e n√£o encara a verdade. Est√° disposta  descobrir a real verdade e ir at√© o fim. Parece piada quando assistimos a esses filmes antigos e de como as mulheres eram subjugadas a serem as esposas dedicadas. Por outro lado, fica a impress√£o de que hoje em dia n√£o se faz mais filmes rom√Ęnticos como antigamente. Um toque, uma magia que se perdeu no tempo. Apesar de tudo, do terror que paira na fita, do suspense, e das coisas tenebrosas de Welles, nota-se o quanto ambos se amavam e mesmo que para tanto Kindler resolva agir com crueldade, mas confuso com rela√ß√£o a esposa. Loretta, al√©m de esposa, fazia a t√≠pica filha de uma autoridade local. De boa √≠ndole e fam√≠lia respeit√°vel na sociedade e bem nascida. Seu pai, um juiz da Suprema Corte.



Welles injeta um tri√Ęngulo pol√≠tico-amoroso como Hitch em Interl√ļdio com a diferen√ßa de ser, do ponto de vista do roteiro, menos complicado e um pouco mais √°gua com a√ß√ļcar. N√£o que visualmente seja um trabalho menos orgulhoso e criativo de Welles. Longe disso, ali√°s, um dos poucos cineastas da √©poca que n√£o sofria de afeta√ß√Ķes. Na verdade, a estrutura do filme sobre esse tema t√£o familiar naquele per√≠odo pode ter fortes semelhan√ßas com Interl√ļdio pelo fato do investigador de Robinson persuadir Mary a delatar o pr√≥prio marido. Ela, assim como Ingrid Bergman na fita de Hitch,passa a trabalhar como uma espi√£, mesmo a contragosto. E, obviamente, Robinson faz uma esp√©cie de Cary Grant, mas sem envolvimento rom√Ęntico com a mocinha. Ele est√° mais para uma figura paterna. Mas, que fique claro, que os tr√™s protagonistas formam a mesma motiva√ß√£o j√° vista em Interl√ļdio. H√° tamb√©m uma variante daqueles filmes de suspense populares dos anos 40 onde o marido sempre planejava matar a esposa inocente quando a mesma descobre algo terr√≠vel a seu respeito. Exemplos significativos: INSPIRA√á√ÉO TR√ĀGICA (1947), com Bogart e  Barbara Stanwyck e o not√°vel mas tamb√©m pouco conhecido; √Ä MEIA-LUZ ( Gaslight, 1944), de George Cukor, com Charles Boyer, novamente Ingrid Bergman e Joseph Cotten.

De todos os vil√Ķes que j√° interpretou, esse daqui cai nas gra√ßas de um √ľbermensch - O Al√©m-Homem, de Nietzsche. E chega a ser t√£o convincente e genial quando demonstra ser atrav√©s de um dos di√°logos mais sensacionais do filme: "Marx n√£o era alem√£o, ele era judeu." N√£o somente nota-se a sua vis√£o de mundo ordin√°rio, de um homem desprez√≠vel. Sim, sua conduta √© conden√°vel, mas, diante aquela cidadezinha pitoresca vivia tamb√©m um homem exc√™ntrico, ou seja, estranho. Seu passatempo/hobby consistia em concertar um rel√≥gio antigo. Mas, por qual raz√£o?

Visualmente, repito: Orson Welles na veia! O ESTRANHO √© um filme que ensina futuras gera√ß√Ķes de cineastas a compreenderem a signific√Ęncia das imagens. O poder dela. A magia do cinema e como tudo pode acontecer. Mesmo que em 1946 os filmes noir j√° haviam absorvido seu amor e glorifica√ß√£o pelo jogo de sombras e pelo grotesco humano, de modo que, creio que acidentalmente, ele acaba se hibridizando a outros representantes do g√™nero. Mas, estava ansioso para escrever agora sobre o √ļltimo ato do filme que √© simplesmente singular. Melodrama, terror e suspense de arrepiar se concentram no cl√≠max, que se  d√° no topo de uma escada sabotada na torre do rel√≥gio...

e agora, OS SPOILERS!!!!! pare de ler se almeja assistir ao filme....



Kindler √© encurralado igual ao nosso querido KING KONG. E, numa das cenas mais impactantes de todo o filme, Kindler √© morto por um daqueles bonecos mec√Ęnicos das engrenagens do rel√≥gio (s√©rio, mas parecia desenho animado do Pica-Pau [RISOS]) que literalmente o empala com uma das espadas estendida na decora√ß√£o, ali√°s, √© um tipo de viol√™ncia gr√°fica justific√°vel para um filme padr√£o-Hollywood naqueles tempos. N√£o vamos nos esquecer que o homem era um nazista e, como j√° disse Steven Spielberg: "Se voc√™ deseja criar um vil√£o, que ele seja nazista..." √Č sempre permitido matar um nazista com requintes de crueldade e criatividade no cinema. Quentin Tarantino j√° mostrou para gente em "Bastardos Ingl√≥rios" a gra√ßa da coisa.

No quesito cidade pequena do sub√ļrbio, David Lynch pode ter bebido nessa fonte porque Welles j√° o antecipava aqui. A atmosfera amig√°vel do interior tranquilo √© totalmente subvertida, sobretudo nos momentos finais descritos acima. O ESTRANHO pode n√£o ser a obra-prima absoluta de Welles, mas √© um baita filme de entretenimento.



Eua
Policial- drama- film-noir
1h 35 min.
★★★★☆




International Pictures, Inc. Apresenta
Edward G. Robinson
Loretta YOUNG
Orson WELLES

The Stranger



COM: PHILIP MERIVALE
RICHARD LONG . BILLY HOUSE
Direção- Orson Welles
Produzido por SAM SPIEGEL
Roteiro
ANTHONY VEILLER . VICTOR TRIVAS . DECLA DUNNING
Argumento Victor Trivas
Colaboração Não creditada
ORSON WELLES e JOHN HUSTON (também como produtor não-creditado)
M√ļsica de..... Bronislaw Kaper
Montagem...... Ernest Nims
Diretor de Fotografia....... Russell Metty
Direção de Arte....... Perry Ferguson
Figurinos....... Michael Woulfe
©1946 An R K O Radio Picture
 The Haig Corporation / International Pictures,Inc.

3 coment√°rios:

Hugo disse...

√Č um dos muitos filmes que est√£o na minha lista para conferir.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

√Č SENSACIONAL, Hugo!

Abraço

Leo Rib disse...

Oi, Rodrigo! Tudo bem?
Estou passando pra avisar que estou com um blog novo. Se chama Nova B√ļssola.
Linkei você lá. Se puder, dê uma passada lá depois pra ver.
Até mais!

https://novabussola.blogspot.com/

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