O BADALAR DO RELÓGIO DA MORTE
SESSÃO
SURPRESA PARTE XI
Um investigador veterano da Comissão de Crimes de Guerra viaja até Connecticut para encontrar um infame nazista.
Um filme de ORSON WELLES (Cidadão Kane, A Marca Da Maldade) e o que eu digo sempre. Welles era um artista a frente de seu tempo e fez muito mais para o cinema do que apenas Cidadão Kane. Diretor, produtor, roteirista e frequentemente astro absoluto do ciclo clássico do FILM-NOIR (vide também: O Terceiro Homem dirigido por Carol Reed). O Cinema Rodrigo traz na Sessão Surpresa de hoje um dos cults do cineasta. Certamente o menos conhecido dele. Facilmente disponível no catálogo da NETFLIX. Assistam e não percam a oportunidade de prestigiar um Thriller de primeira linha. Curiosamente, O ESTRANHO foi um projeto encomendado para o diretor e em se tratando de Welles, eis uma oportunidade de ouro e um grande desafio, isto é, dirigir uma fita dentro dos padrões comerciais do sistema Hollywoodiano, no caso, para o seu produtor, SAM SPIEGEL (1901-1985), uma lenda do cinema responsável por obras-primas tais quais Lawrence da Arábia (1962), Sindicato de Ladrões (1954), A Ponte do Rio Kwai (1957) e Uma Aventura na África (1951) para citar apenas alguns. Entretanto, por mais que o filme tenha
tido um resultado padrão é impossível negar o poder visual e tudo aquilo que ainda possa ser considerado "fora da caixinha" na visão de Orson Welles.
The Stranger segue a linha dos filmes sobre perseguição de criminosos nazistas do pós-guerra. Na verdade, através da Netflix,foi que pude conferir pela primeira vez. É impressionante como logo de cara eu já notei que este filme, hoje ressuscitado, é provavelmente o melhor representante deste subgênero. Obviamente existem outros filmes similares. Sem dúvida os mais famosos são INTERLÚDIO (1946) de Alfred Hitchcock e ACOSSADO (1945) de Edward Dmytryk (favor não confundir com o outro Acossado de 1960 do Godard!).
Especialista em interpretar vilões asquerosos, O Estranho não foi uma exceção para Welles. Ele entende bem a alma da vilania. Do homem capaz de tudo para se dar ao luxo de vencer, ou de pelo menos tentar, no final. Mas o mal nunca vence, né mesmo? Embora na ficção tenha feito um protagonista malvado, a fita remete à reputação de Welles no que se diz respeito a ser assumidamente antifascista e creio que foi o real motivo por ter aceitado dirigir e estrelar. Em outras palavras, O Estranho, também, acaba sendo um filme que consegue lindamente encontrar eco em um romance que ele considerou filmar antes de decidir que Kane seria o seu filme de estreia. O projeto em questão chamava-se "The Smiler With a Knife" escrito por Nicholas Blake sobre o fascismo no Reino Unido.
O começo pode ser um tanto enfadonho, mas que vai melhorando na medida em que Welles nos projeta para aquela pacata cidadezinha americana e principalmente na cena em que testemunhamos um assassinato. E que elenco! Welles sempre teve sorte com atores em seus filmes. Na premissa,o investigador veterano designado pelo Governo a sair a procura de um ex-nazista é nada mais e nada menos do que o extraordinário EDWARD G. ROBINSON (1893-1973) como Wilson. Lendário ator famoso pelo ciclo de filmes policiais e de gangster noir da Warner e também de participações de grande ressonância em filmes como Pacto de Sangue (1944) de Wilder e Os Dez Mandamentos (1956) de DeMille. Só que ele atuou em tantos filmes que cito apenas alguns da mostra. Ele está no encalço de um homem a priori carismático, mas que supostamente foi um nazista cruel e responsável por atrocidades em campos de concentrações. Ele atende pelo nome de Franz Kindler (Welles) que já começa no filme tenso e com cara de assustado. Para tanto, a trama tinha que se passar em uma pequena cidade universitária do Connecticut na qual Kindler leciona e é adorado pelos seus alunos. Uma figura de respeito. Gentil, bondoso e muito bem casado. Quem iria imaginar o contrário? Em um jogo de gato e rato onde as aparências enganam, Kindler é agora Charles Rankin e ensinar História é a profissão que escolhera para os fins de seus dias. Sua esposa é a adorável Mary, outra diva do cinema na qual tenho predileção;LORETTA YOUNG (1913-2000) a vencedora do Oscar por "Ambiciosa" (The Farmer's Daughter, 1947) de H.C. Potter, seu filme seguinte e que reza a lenda que se envolveu romanticamente com Welles nesse período. Young era uma atriz perfeita para essa fase noir da década de 40 e principalmente nos papéis de esposas. Ela o ama e não encara a verdade. Está disposta descobrir a real verdade e ir até o fim. Parece piada quando assistimos a esses filmes antigos e de como as mulheres eram subjugadas a serem as esposas dedicadas. Por outro lado, fica a impressão de que hoje em dia não se faz mais filmes românticos como antigamente. Um toque, uma magia que se perdeu no tempo. Apesar de tudo, do terror que paira na fita, do suspense, e das coisas tenebrosas de Welles, nota-se o quanto ambos se amavam e mesmo que para tanto Kindler resolva agir com crueldade, mas confuso com relação a esposa. Loretta, além de esposa, fazia a típica filha de uma autoridade local. De boa índole e família respeitável na sociedade e bem nascida. Seu pai, um juiz da Suprema Corte.
Welles injeta um triângulo político-amoroso como Hitch em Interlúdio com a diferença de ser, do ponto de vista do roteiro, menos complicado e um pouco mais água com açúcar. Não que visualmente seja um trabalho menos orgulhoso e criativo de Welles. Longe disso, aliás, um dos poucos cineastas da época que não sofria de afetações. Na verdade, a estrutura do filme sobre esse tema tão familiar naquele período pode ter fortes semelhanças com Interlúdio pelo fato do investigador de Robinson persuadir Mary a delatar o próprio marido. Ela, assim como Ingrid Bergman na fita de Hitch,passa a trabalhar como uma espiã, mesmo a contragosto. E, obviamente, Robinson faz uma espécie de Cary Grant, mas sem envolvimento romântico com a mocinha. Ele está mais para uma figura paterna. Mas, que fique claro, que os três protagonistas formam a mesma motivação já vista em Interlúdio. Há também uma variante daqueles filmes de suspense populares dos anos 40 onde o marido sempre planejava matar a esposa inocente quando a mesma descobre algo terrível a seu respeito. Exemplos significativos: INSPIRAÇÃO TRÁGICA (1947), com Bogart e Barbara Stanwyck e o notável mas também pouco conhecido; À MEIA-LUZ ( Gaslight, 1944), de George Cukor, com Charles Boyer, novamente Ingrid Bergman e Joseph Cotten.
De todos os vilões que já interpretou, esse daqui cai nas graças de um übermensch - O Além-Homem, de Nietzsche. E chega a ser tão convincente e genial quando demonstra ser através de um dos diálogos mais sensacionais do filme: "Marx não era alemão, ele era judeu." Não somente nota-se a sua visão de mundo ordinário, de um homem desprezível. Sim, sua conduta é condenável, mas, diante aquela cidadezinha pitoresca vivia também um homem excêntrico, ou seja, estranho. Seu passatempo/hobby consistia em concertar um relógio antigo. Mas, por qual razão?
Visualmente, repito: Orson Welles na veia! O ESTRANHO é um filme que ensina futuras gerações de cineastas a compreenderem a significância das imagens. O poder dela. A magia do cinema e como tudo pode acontecer. Mesmo que em 1946 os filmes noir já haviam absorvido seu amor e glorificação pelo jogo de sombras e pelo grotesco humano, de modo que, creio que acidentalmente, ele acaba se hibridizando a outros representantes do gênero. Mas, estava ansioso para escrever agora sobre o último ato do filme que é simplesmente singular. Melodrama, terror e suspense de arrepiar se concentram no clímax, que se dá no topo de uma escada sabotada na torre do relógio...
e agora, OS SPOILERS!!!!! pare de ler se almeja assistir ao filme....
Kindler é encurralado igual ao nosso querido KING KONG. E, numa das cenas mais impactantes de todo o filme, Kindler é morto por um daqueles bonecos mecânicos das engrenagens do relógio (sério, mas parecia desenho animado do Pica-Pau [RISOS]) que literalmente o empala com uma das espadas estendida na decoração, aliás, é um tipo de violência gráfica justificável para um filme padrão-Hollywood naqueles tempos. Não vamos nos esquecer que o homem era um nazista e, como já disse Steven Spielberg: "Se você deseja criar um vilão, que ele seja nazista..." É sempre permitido matar um nazista com requintes de crueldade e criatividade no cinema. Quentin Tarantino já mostrou para gente em "Bastardos Inglórios" a graça da coisa.
No quesito cidade pequena do subúrbio, David Lynch pode ter bebido nessa fonte porque Welles já o antecipava aqui. A atmosfera amigável do interior tranquilo é totalmente subvertida, sobretudo nos momentos finais descritos acima. O ESTRANHO pode não ser a obra-prima absoluta de Welles, mas é um baita filme de entretenimento.
International Pictures, Inc. Apresenta
tido um resultado padrão é impossível negar o poder visual e tudo aquilo que ainda possa ser considerado "fora da caixinha" na visão de Orson Welles.
The Stranger segue a linha dos filmes sobre perseguição de criminosos nazistas do pós-guerra. Na verdade, através da Netflix,foi que pude conferir pela primeira vez. É impressionante como logo de cara eu já notei que este filme, hoje ressuscitado, é provavelmente o melhor representante deste subgênero. Obviamente existem outros filmes similares. Sem dúvida os mais famosos são INTERLÚDIO (1946) de Alfred Hitchcock e ACOSSADO (1945) de Edward Dmytryk (favor não confundir com o outro Acossado de 1960 do Godard!).
Especialista em interpretar vilões asquerosos, O Estranho não foi uma exceção para Welles. Ele entende bem a alma da vilania. Do homem capaz de tudo para se dar ao luxo de vencer, ou de pelo menos tentar, no final. Mas o mal nunca vence, né mesmo? Embora na ficção tenha feito um protagonista malvado, a fita remete à reputação de Welles no que se diz respeito a ser assumidamente antifascista e creio que foi o real motivo por ter aceitado dirigir e estrelar. Em outras palavras, O Estranho, também, acaba sendo um filme que consegue lindamente encontrar eco em um romance que ele considerou filmar antes de decidir que Kane seria o seu filme de estreia. O projeto em questão chamava-se "The Smiler With a Knife" escrito por Nicholas Blake sobre o fascismo no Reino Unido.
O começo pode ser um tanto enfadonho, mas que vai melhorando na medida em que Welles nos projeta para aquela pacata cidadezinha americana e principalmente na cena em que testemunhamos um assassinato. E que elenco! Welles sempre teve sorte com atores em seus filmes. Na premissa,o investigador veterano designado pelo Governo a sair a procura de um ex-nazista é nada mais e nada menos do que o extraordinário EDWARD G. ROBINSON (1893-1973) como Wilson. Lendário ator famoso pelo ciclo de filmes policiais e de gangster noir da Warner e também de participações de grande ressonância em filmes como Pacto de Sangue (1944) de Wilder e Os Dez Mandamentos (1956) de DeMille. Só que ele atuou em tantos filmes que cito apenas alguns da mostra. Ele está no encalço de um homem a priori carismático, mas que supostamente foi um nazista cruel e responsável por atrocidades em campos de concentrações. Ele atende pelo nome de Franz Kindler (Welles) que já começa no filme tenso e com cara de assustado. Para tanto, a trama tinha que se passar em uma pequena cidade universitária do Connecticut na qual Kindler leciona e é adorado pelos seus alunos. Uma figura de respeito. Gentil, bondoso e muito bem casado. Quem iria imaginar o contrário? Em um jogo de gato e rato onde as aparências enganam, Kindler é agora Charles Rankin e ensinar História é a profissão que escolhera para os fins de seus dias. Sua esposa é a adorável Mary, outra diva do cinema na qual tenho predileção;LORETTA YOUNG (1913-2000) a vencedora do Oscar por "Ambiciosa" (The Farmer's Daughter, 1947) de H.C. Potter, seu filme seguinte e que reza a lenda que se envolveu romanticamente com Welles nesse período. Young era uma atriz perfeita para essa fase noir da década de 40 e principalmente nos papéis de esposas. Ela o ama e não encara a verdade. Está disposta descobrir a real verdade e ir até o fim. Parece piada quando assistimos a esses filmes antigos e de como as mulheres eram subjugadas a serem as esposas dedicadas. Por outro lado, fica a impressão de que hoje em dia não se faz mais filmes românticos como antigamente. Um toque, uma magia que se perdeu no tempo. Apesar de tudo, do terror que paira na fita, do suspense, e das coisas tenebrosas de Welles, nota-se o quanto ambos se amavam e mesmo que para tanto Kindler resolva agir com crueldade, mas confuso com relação a esposa. Loretta, além de esposa, fazia a típica filha de uma autoridade local. De boa índole e família respeitável na sociedade e bem nascida. Seu pai, um juiz da Suprema Corte.
Welles injeta um triângulo político-amoroso como Hitch em Interlúdio com a diferença de ser, do ponto de vista do roteiro, menos complicado e um pouco mais água com açúcar. Não que visualmente seja um trabalho menos orgulhoso e criativo de Welles. Longe disso, aliás, um dos poucos cineastas da época que não sofria de afetações. Na verdade, a estrutura do filme sobre esse tema tão familiar naquele período pode ter fortes semelhanças com Interlúdio pelo fato do investigador de Robinson persuadir Mary a delatar o próprio marido. Ela, assim como Ingrid Bergman na fita de Hitch,passa a trabalhar como uma espiã, mesmo a contragosto. E, obviamente, Robinson faz uma espécie de Cary Grant, mas sem envolvimento romântico com a mocinha. Ele está mais para uma figura paterna. Mas, que fique claro, que os três protagonistas formam a mesma motivação já vista em Interlúdio. Há também uma variante daqueles filmes de suspense populares dos anos 40 onde o marido sempre planejava matar a esposa inocente quando a mesma descobre algo terrível a seu respeito. Exemplos significativos: INSPIRAÇÃO TRÁGICA (1947), com Bogart e Barbara Stanwyck e o notável mas também pouco conhecido; À MEIA-LUZ ( Gaslight, 1944), de George Cukor, com Charles Boyer, novamente Ingrid Bergman e Joseph Cotten.
De todos os vilões que já interpretou, esse daqui cai nas graças de um übermensch - O Além-Homem, de Nietzsche. E chega a ser tão convincente e genial quando demonstra ser através de um dos diálogos mais sensacionais do filme: "Marx não era alemão, ele era judeu." Não somente nota-se a sua visão de mundo ordinário, de um homem desprezível. Sim, sua conduta é condenável, mas, diante aquela cidadezinha pitoresca vivia também um homem excêntrico, ou seja, estranho. Seu passatempo/hobby consistia em concertar um relógio antigo. Mas, por qual razão?
Visualmente, repito: Orson Welles na veia! O ESTRANHO é um filme que ensina futuras gerações de cineastas a compreenderem a significância das imagens. O poder dela. A magia do cinema e como tudo pode acontecer. Mesmo que em 1946 os filmes noir já haviam absorvido seu amor e glorificação pelo jogo de sombras e pelo grotesco humano, de modo que, creio que acidentalmente, ele acaba se hibridizando a outros representantes do gênero. Mas, estava ansioso para escrever agora sobre o último ato do filme que é simplesmente singular. Melodrama, terror e suspense de arrepiar se concentram no clímax, que se dá no topo de uma escada sabotada na torre do relógio...
e agora, OS SPOILERS!!!!! pare de ler se almeja assistir ao filme....
Kindler é encurralado igual ao nosso querido KING KONG. E, numa das cenas mais impactantes de todo o filme, Kindler é morto por um daqueles bonecos mecânicos das engrenagens do relógio (sério, mas parecia desenho animado do Pica-Pau [RISOS]) que literalmente o empala com uma das espadas estendida na decoração, aliás, é um tipo de violência gráfica justificável para um filme padrão-Hollywood naqueles tempos. Não vamos nos esquecer que o homem era um nazista e, como já disse Steven Spielberg: "Se você deseja criar um vilão, que ele seja nazista..." É sempre permitido matar um nazista com requintes de crueldade e criatividade no cinema. Quentin Tarantino já mostrou para gente em "Bastardos Inglórios" a graça da coisa.
No quesito cidade pequena do subúrbio, David Lynch pode ter bebido nessa fonte porque Welles já o antecipava aqui. A atmosfera amigável do interior tranquilo é totalmente subvertida, sobretudo nos momentos finais descritos acima. O ESTRANHO pode não ser a obra-prima absoluta de Welles, mas é um baita filme de entretenimento.
Eua
Policial-
drama- film-noir
1h
35 min.
★★★★☆International Pictures, Inc. Apresenta
Edward G. Robinson
Loretta YOUNG
Orson WELLES
The Stranger
COM: PHILIP MERIVALE
RICHARD LONG . BILLY HOUSE
Direção- Orson Welles
Produzido por SAM SPIEGEL
Roteiro
ANTHONY VEILLER . VICTOR TRIVAS . DECLA
DUNNING
Argumento Victor Trivas
Colaboração Não creditada
ORSON WELLES e JOHN HUSTON (também como produtor não-creditado)
Música de..... Bronislaw Kaper
Montagem...... Ernest Nims
Diretor de Fotografia....... Russell Metty
Direção de Arte....... Perry Ferguson
Figurinos....... Michael Woulfe
©1946 An R K O Radio Picture
The Haig
Corporation / International Pictures,Inc.









3 comentários:
É um dos muitos filmes que estão na minha lista para conferir.
Abraço
É SENSACIONAL, Hugo!
Abraço
Oi, Rodrigo! Tudo bem?
Estou passando pra avisar que estou com um blog novo. Se chama Nova Bússola.
Linkei você lá. Se puder, dê uma passada lá depois pra ver.
Até mais!
https://novabussola.blogspot.com/
Postar um comentário