OUTUBRO DAS BRUXAS
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SESSÃO DINOSSAURO
EDIÇÃO 15
EDIÇÃO 15
THRILLER PIONEIRO
Um intrépido repórter e seu fiel amigo lutam contra uma estranha sociedade secreta de criminosos conhecida como Os Vampiros.
Mais uma nova edição dos filmes "pré-históricos". Das fitas pioneiras. Os primeiros filmes a que chamo carinhosamente de "Sessões Dinossauro". Do final do século dezenove até os primeiros anos do século vinte na era prima do cinema mudo. Exatamente. Sem som e em preto-e-branco. Pouco atraentes para o público mais jovem, mas envolvente e apaixonante para todo cinéfilo. Essa produção se encaixaria em qualquer especial ou postagem de rotina aqui no blogue e não necessariamente no Outubro das Bruxas. Não pelo fato de existir vampiros na premissa que um filme é excepcionalmente de terror. Os Vampiros (1915) é curioso. Se encaixa perfeitamente em sessões de matinê. Mistura ação, aventura e filmes de detetive com o melhor do Thriller (e um pouco terror). Por ser tão temático, achei que seria justo classificá-lo para compor o especial deste mês. E, curiosamente, além de pioneiro, eis um filme nada convencional, embora um tanto irregular, mas irregularidades que são compreendidas devido a época de produção. Afinal, a sétima arte ainda estava engatinhando.
É algo como à história de detetive e ao Thriller de casa assombrada. Rodado na França, a direção é do francês Louis Feuillade (1873–1925), um prolífico diretor com mais de 700 filmes, a maioria deles de curta ou média duração. Criador do Fantômas - À l'ombre de la guillotine (1913). Feuillade iniciou sua carreira na Gaumont, onde, além de dirigir suas próprias produções, foi nomeado diretor artístico encarregado da produção em 1907. O trabalho foi em grande parte composto por séries de filmes; sua primeira série, iniciada em 1910 e numerando 15 episódios, foi Le Film Esthétique, uma tentativa financeiramente malsucedida de cinema "high-brow". Este aqui é por muitos considerado um divisor de águas. Foi o filme que iniciou, por exemplo, o uso da profundidade de campo como um recurso estético narrativo, aliás, Os Vampiros começou com a onda de filmes surrealistas. É o pai de todos eles. Desenvolvido para ser um filme de suspense propriamente. Na época ainda se compreendia qual gênero tomar. Os cineastas deste período eram mais instintivos já que eram os primeiros em muitas áreas, sobretudo os franceses, e principalmente o seu patrício, o pai de todos eles: Georges Méliès. Feuillade é também de suma importância, embora não tenha a mesma fama de Méliès. Ele concebeu esta obra originalmente em dez partes que são vagamente interligadas e cujos finais resultam em ganchos pouco convincentes. Variam muito em termos de duração, além de terem sido lançados com intervalos irregulares. É algo entre uma série de filmes e um filme em episódios. O enredo pode ser peculiar e bastante mirabolante do que se tem hoje em dia e de como a narrativa cinematográfica evoluiu (principalmente com Griffith), mas é impossível ser indiferente mesmo com a inconsistente trama que se concentra em uma exuberante gangue de criminosos parisienses, os tais Vampiros, e seu destemido oponente, um dos personagens mais caricatos que já vi no cinema, feito por Édouard Mathé (1886–1934) como Philippe Guérande. Galã que atuou em 90 produções até 1924. foi Raoul de Nérac em Barrabas (1919), outra produção de Feuillade. Mas é interpretando Guérande que é mais notável, o papel de uma vida. Era como fazer James Bond e Sherlock Holmes.
No filme, a sugestão é de que esses vampiros (bem diferentes dos vampiros que nos são habituais, diga-se), são na verdade mestres do disfarce. Eles usam, obviamente, um figurino preto só que colantes durante seus crimes. E, em sua "Ordem" se é que posso chamar assim, são comandados por quatro sucessivos "Mestres Vampiros", que são assassinados um a um e contam com a fidelidade servil da primeira mulher fatal (vamp) da história: ela, a também vampiresca Irma VEP (que é um anagrama de vampire em francês). E quem dá vida a imortal medonha mulher morcego? A hipnótica Musidora (1889–1957). Ela é a que mais brilha na fita e certamente inspirou várias personagens femininas vampiras ao longo dos tempos. Acredito que a atriz brasileira Cláudia Ohana a tenha visto aqui ao criar a sua inesquecível vampira da telenovela Vamp (1991-1992), de Antônio Calmon, a produção mais cool da Rede Globo dos anos 90. Eu imediatamente penso em Natasha quando observo Irma Vep totalmente voluptuosa. Ela é a alma não só dos camaradas vampiros, mas do próprio filme. Ela é de um carisma tão natural que supera lidamente o exagero caricatural do herói, por vezes monótomo. Mesmo numa estrutura maniqueísta (por mais que seja um filme de 1915) Musidora contribui para um tom de certa forma mais amoral, reforçado pela maneira como os mocinhos e os bandidos muitas vezes se valem dos mesmos métodos ilícitos e pelo perturbador massacre dos vampiros no final.
Os Vampiros também se vale por ser um filme onde o mundo é aparentemente rígido em sua ordem burguesa, ao mesmo tempo que o sabota. Adoro a direção de arte muito bem pensada como pisos e paredes grossos de cada château. Assim sendo, tornam-se ocos com alçapões e as clássicas passagens secretas. As enormes lareiras servem de acesso a assassinos e ladrões que fogem pelos telhados de Paris e sobem e descem calhas como macacos! Se eu for descrever as várias cenas deste filme puramente dadaísta preferia dizer em resumo que são imagens poéticas, como, por exemplo, quando o herói coloca a cabeça para fora da janela apenas para ser laçado pelo pescoço, puxado para a rua, enfiado dentro de um grande cesto e levado embora por um Táxi... ou no momento em que uma parede com uma lareira se abre para "regurgitar" um enorme canhão, que desliza até a janela e atira projéteis em um cabaré próximo.
Feuillade reforça que sua trama é uma construção em torno de prodigiosas reviravoltas (mesmo que algumas irregulares), que envolvem capciosas aparições em ambos os lados da lei. A exemplo de personagens aparentemente mortos que voltam à vida, e o mais atrativo: os chamados pilares da sociedade ( ex.: policial, padre, juiz) que provam ser vampiros e vampiros se mostram agentes disfarçados que respondem aos rigores da lei. O diretor é capaz de nos transportar a um mundo dúbio imaginativo. Tudo fora criado para ser em grande escala. Pode ser estranho por ser tanto concreto quanto onírico, mas este é um filme que transcende o tempo e continua na vanguarda. Os Vampiros ajudou a fomentar o gênero Thriller. Pioneiro neste quesito e uma obra magnética.
FRANÇA
THRILLER/TERROR
AÇÃO/AVENTURA/POLICIAL
AÇÃO/AVENTURA/POLICIAL
7h 1min. (Seriático)
★★★☆☆
Les
vampires
© 1915
Société des Etablissements L. Gaumont
Direção
Louis
Feuillade
Musidora ... Irma
Vep
Édouard
Mathé ... Philippe
Guérande
Marcel
Lévesque ... Oscar
Mazamette
Jean
Aymé ... Le
Grand Vampire
Fernand
Herrmann ... Juan-José
Moréno / Brichonnet
Stacia
Napierkowska ... Marfa
Koutiloff
Fotografado
por
Georges
Guérin . Manichoux
Direção
de Arte Robert-Jules Garnier
Música
de Robert
Israel Roteiro/Titulagens Feuillade








Um comentário:
Caraca que diferente!
Nunca poderia imaginar que tem um filme P&B e mudo sobre vampiros e ainda em formato de série com capítulos interligados e com uma pegada thriller investigativo.
Uma obra verdadeiramente atemporal.
Vai para a wishlist.
Bjs Luli
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