OUTUBRO DAS BRUXAS
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JOGOS
MORTAIS
Dois jovens violentos levam uma mãe, pai e filho como reféns em sua casa de férias e os obrigam a participarem de "jogos" sádicos um com o outro para sua própria diversão.
Stanley Kubrick me apresentou pela primeira vez sua chocante visão sobre violência doméstica ou como muitos preferem dizer "Filme sobre Invasão de Domicílio", naquele que se tornaria um dos maiores clássicos da história do cinema: LARANJA MECÂNICA (1971). E até aquele momento, na época, enquanto me "horrorizava" com o filme, sendo adolescente, também ficava entorpecido pela violência. Isso porque Kubrick a mostrou como uma dança numa sequência de ataques estilizados. Como uma expressão da pop-art, Laranja está longe de ser uma demonstração gratuita. E o filme que me mostrou essa diferença é sem dúvida Violência Gratuita (1997) do cineasta alemão radicado na áustria MICHAEL HANEKE (Caché, Amor, A Fita Branca) e, apesar de possuir uma marca totalmente divergente a de Kubrick, ambos tem uma coisa em comum: nenhum deles conhecem a palavra atalho. Não são cineastas de filmes fáceis, por isso, sempre ressonantes e que geram as discussões das mais divergentes e edificantes. É aquilo que cinéfilos sempre dizem: ame ou odeie.
Haneke levou a fama de ser um diretor de festivais. Conseguiu sucesso em Cannes, com três prêmios para o seu A PROFESSORA DE PIANO, 2001, (melhor atriz- Isabelle Huppert, ator - Benoît Magimel e Especial do Júri). Tem grande conhecimento de Filosofia, Psicologia e Teatro, quando estudou em Viena, tanto que as disciplinas são presenças fortes em sua obra. De 1967 a 1970, trabalhou para a TV alemã, passando depois a dirigir cinema. Também é diretor de teatro encenando peças por toda a Europa. Ele é um roteirista-diretor que possui total controle, mas que nunca sai pela tangente. Seus filmes não são fáceis e alguns nem muito agradáveis. Para mim a sua obra-prima é certamente A Fita Branca; sobre estranhos eventos que acontecem em uma pequena aldeia no norte da Alemanha durante os anos antes da Primeira Guerra Mundial, que parecem ser punições rituais. Mas nem A Fita permanece tanto em meus pensamentos como Funny Games. A priori, não gostei. O horror foi tanto que acabou sendo uma experiência desagradável. Revi alguns anos depois. Revi recentemente sendo a minha terceira assistida e resolvi escalá-lo para este especial de terror. Funny é terror puro. O pior filme de horror que você poderia imaginar. Não há monstros e nenhum tipo de criatura sobrenatural. Não existem zumbis sedentos por carne humana fresca nesta premissa tão crua e realista. É a violência pela violência. Um estudo sobre a brutalidade humana que assume um exercício para preencher um vazio existencial. Me faz lembrar, também, de outra obra clássica do cinema, a comandada pelo Mestre do Suspense, Hitchcock, Festim Diabólico (Rope, 1948); sobre dois jovens que estrangulam seu colega "inferior" a sua classe social e que escondem seu corpo em seu apartamento e convidam seus amigos e familiares para um jantar como forma de desafiar a "perfeição" de seu crime. Tamanha violência proferida de mentes perturbadas diretamente do clero, na qual as aparências enganam. E como enganam. Neste filme, Hitch explora o subtexto que é claramente sobre assassinos homossexuais e amantes reprimidos sexualmente criando uma espécie de "tensão sexual" nas entrelinhas em meio ao suspense e toda a adrenalina durante a ação enquanto o corpo não é descoberto pelos convidados. Haneke, por outro lado, não está interessado em criar antecipações. Ele nos joga logo de cara a natureza desta história. Sem rodeios os freios.
Não é o meu filme predileto, mas é curioso as sutilezas que Haneke imprime aqui. Creio que acaba sendo mais perturbador por ser provocador. O diretor convida a plateia, assim como os algozes são convidados, a entrar na casa. No caso do espectador, somos levados ao limite e se quisermos continuar assistindo não teremos escolha a não ser sermos forçados (como as vítimas) a contemplar a ausência de sentido na violência aleatória, bem como nosso fascínio incessante por apreciá-la na tela. É aquilo que o Tarantino sempre diz sobre a violência no cinema. Umas das coisas mais divertidas de se assistir. Mas, na minha opinião, até para isso, existe um limite. Existem filmes e filmes. Fitas que tratam a violência com comicidade e exagero e outros filmes que conseguem dramatizá-la a um nível hiper-realista, como Haneke o faz aqui.
É sobre uma família comum, aliás, bem-sucedida (seria interessante se no filme fossem pobres economicamente? Faz a gente pensar no culto que Charles Manson comandou em 1969 que culminou naquela terrível onda de crimes) que vai passar as férias em sua casa à beira de um lago. Ao chegarem, o filme já começa com tudo, pois ali está um jovem gordinho e de aparência asseada, interpretado por Frank Giering (1971-2010), -ator alemão que morreu estranhamente por hemorragia interna após envenenamento por álcool -, que bate à porta e pede, polidamente, um ovo emprestado. Então se junta a ele um amigo mais magro e ainda mais refinado e educado, vivido por Arno Frisch, astro do filme anterior e igualmente perturbador de Haneke, O Video de Benny (1992). Enganada por sua bondade e ingenuidade de atender aos vizinhos e, o mais importante, pela aparência bem cuidada dos rapazes e por estes se dizerem amigos da família ao lado, Anna, a matriarca, a ótima Susanne Lothar (1960-2012 - era atriz alemã e participou de filmes importantes, entre vários, A Fita Branca e A Professora de Piano, além de O Leitor, com Kate Winslet e e a última adaptação de Anna Karenina, de Wright), os deixa entrar. Uma vez na casa, no entanto, os rapazes incapacitam o marido vivido por Ulrich Mühe (1953-2007 - que na vida real foi casado de verdade com Lothar e morreu de um câncer no estômago. O ator havia participado de obras como A Vida dos Outros (2006), vencedor do Oscar, dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck), forçam Anna a se despir e atiram no jovem filho do casal! A pior parte. É de uma crueza e de um medo assustadoramente recíproco como se eu mesmo tivesse perdido um filho, uma parte de mim. Daí em diante...o filme me deixou extremamente incomodado. Tal frieza que me fez afastar da obra por muitos anos, mas que sempre esteve comigo.
Enfim, Haneke não conta uma história de família feliz, vizinhos gentis e salada de macarrão. Não é um final de semana como os filmes de Sexta-Feira 13. É muito pior. É aquilo que Kubrick alertou em Laranja sobre o nosso santuário, Lar doce lar não ser mais um refúgio seguro. Estamos, hoje, à mercê de facínoras. O medo de as trancas não serem suficientes e, pior, não sabermos distinguir o bem do mal. Do rapaz branco que usa camiseta polo ao empregado maltrapilho negro. Por que, sejamos sinceros, o preconceito étnico ainda está impregnado em nossa sociedade doentia.
Em outras palavras, Funny Games, mostra adolescentes sádicos que acham divertido brincar de jogos nada engraçados, e que ferem tanto o nosso físico quanto o nosso emocional. Haneke, pra deixar tudo ainda mais impressionante e até curioso, está nos querendo dizer que ele é como os rapazes e nós as vítimas, em alguma escala, já que a todo o momento ele brinca com o público. E, por exemplo, vai ao limite com a arte cinematográfica quando é capaz de interromper o fluxo da narrativa e, com isso, permitindo ao amigo do rapaz "retornar" a fita e salvar seu parceiro depois que Anna, teoricamente, havia de fato matado um deles.
O filme não é recomendado para todos os tipos de público. Você está diante de uma bifurcação e escolhe um caminho. Vai gostar ou não. Quanto a mim, NÃO. Definitivamente não é o meu tipo de filme. Admiro outros filmes do Haneke, mas eu tenho problemas em apreciar Funny Games. O que me faz crer o quanto Haneke é bom e a maneira como ele têm filmes de personalidade. São muitas as questões em pauta. É sobre tudo aquilo que nos perturba realmente. A inevitabilidade da desgraça alheia está muito presente neste filme. Não é como assistir aos domingos os vídeos caseiros do quadro "As Vídeo cassetadas" do Fautão. Uma coisa é rir do tombo da mamãe e do papai ou do filhinho no quintal da casa, outra é ouvir Cantando na Chuva enquanto drugs estupram e batem em um casal de velhos e outra pior (e diferente) é testemunhar a pura e simples violência gratuita de raptores sadistas.
Obteve uma indicação (Palma de Ouro) para Heneke. Refilmado quadro a quadro pelo mesmo em 2007 e estrelado por Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt e Brady Corbet.
Áustria
Áustria
Terror/Drama
1h
48min.
★☆☆☆☆
um
filme de Michael Haneke
FUNNY
GAMES
com: Susanne Lothar Ulrich Mühe Arno Frisch
Frank Giering Stefan Clapczynski
Doris Kunstmann Christoph Bantzer
Wolfgang Glück Susanne Meneghel e Monika Zallinger
FUNNY
GAMES
com: Susanne Lothar Ulrich Mühe Arno Frisch
Frank Giering Stefan Clapczynski
Doris Kunstmann Christoph Bantzer
Wolfgang Glück Susanne Meneghel e Monika Zallinger
Produzido
por
Veit Heiduschka
Direção
de Fotografia Jürgen Jürges
Montagem
Andreas Prochaska
Direção
de Arte Christoph Kanter
Figurinos
Lisy Christl
Maquiagens
Simone Bachl e Waldemar Pokromski
Roteiro
e Direção
Michael Haneke
© 1997 Filmfonds Wien / Wega Film
Österreichischer Rundfunk (ORF) / Österreichisches Filminstitut
© 1997 Filmfonds Wien / Wega Film
Österreichischer Rundfunk (ORF) / Österreichisches Filminstitut






2 comentários:
Puxa esse vou passar :/
É o tipo de terror que tenho medo, não é sobrenatural, não tem fantasminhas nem zumbis ou demônios, tem o ser humano, nu e cru, o monstro mais cruel, sádico e perverso que há.
É daqueles que faz dormir com a luz acesa ou não dormir.
De qualquer maneira filmes difíceis sempre provocam reflexões.
Bjs Luli
https://cafecomleituranarede.blogspot.com.br
Luli: Sim, esse filme é bem pesado. Eu também não gosto.
Beijos.
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