Bernardo Bertolucci (1941–2018)
Morreu no dia 26 de Novembro um dos nomes mais ressonantes do Cinema Mundial. Envolvido em polêmicas com filmes que marcaram gerações. Bertolucci foi um dos poucos mestres da sétima arte em contar histórias que soube unificar uma paixão pelo cinema mesclado a um erotismo singular que se tornou a sua marca registrada. O post de hoje é um especial sobre a obra do cineasta, mas também é uma resenha de um dos filmes mais interessantes do mesmo lançado algumas décadas... 1900, de 1976, um drama histórico que é certamente hoje em dia entre todos os filmes dele um dos menos comentados. Trata-se de uma história épica de uma luta de classes na Itália do século XX, vista pelos olhos de dois amigos de infância em lados opostos... mas, por enquanto, vamos conhecer um pouco mais de Bertolucci...
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| Bernardo Bertolucci e Luca Guadagnino |
Pouco antes em seus últimos suspiros de vida vencido por uma longa batalha contra um câncer, ele foi um dos mais bem sucedidos diretores da safra de artistas italianos dos anos 70. Era filho do poeta Attilio Bertolucci (1911-2000), nasceu em 16 de março de 1941, em Parma, Emília-Romanha, Itália. Cresceu envolvido pelo Cinema, fazendo fitas amadoras desde os doze anos. Trabalhou como assistente de Pasolini em Accattone - Desajuste Social (1961), publicou poemas. Começou com filmes engajados, mas encaminhou-se a uma espécie de desespero poético e escandaloso com o sempre comentado clássico Último Tango em Paris (Ultimo tango a Parigi - 1972) , que, na época, chegou a ser censurado em muitos países, inclusive no Brasil ditatorial. Na Itália, foi condenado e teve suas cópias queimadas! Tornou-se uma celebridade mundial com 1900, este que falarei, um ambicioso painel da história da Itália , com uma "ótica materialista histórica". Depois disso, uma inexplicável decadência e silêncio e um retorno triunfante com o consagrado O Último Imperador (The Last Emperor -1987), que lhe deu o Oscar de Melhor Diretor. Em seguida adaptou a obra de Paul Bowles em O Céu que nos Protege (The Sheltering Sky- 1990) com Debra Winger e John Malkovich, e tentou contar em O Pequeno Buda (Little Buddha- 1993), as origens do budismo, com Keanu Reeves no papel do príncipe Siddhartha.
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| Bertolucci e Marlon Brando filmagens de "O Último Tango em Paris" |
Beleza Roubada ( Stealing Beauty- 1996), talvez o melhor papel de Liv Tyler, foi selecionado para o Festival de Cannes, aliás, foi este filme que marcou seu retorno às filmagens em território italiano, mostrando a transformação de uma adolescente em mulher, e que, sim, revelou a jovem Tyler. Mas seu melhor filme, em minha opinião, foi Assédio (1998), com Thandie Newton e David Thewlis, uma produção honesta e modesta, feita originalmente para a televisão italiana sob o título "L'assedio", mas que acabou exibida em salas de Cinema no resto do mundo. Provavelmente a sua última grande obra-prima (ou pequena obra-prima, um Bertolicci menor como muitos preferem dizer) seja o sensacional (e quente) Os Sonhadores (The Dreamers- 2003), com o trio Michael Pitt, Louis Garrel e revelando Eva Green. Mas, ainda dirigiu o ótimo Eu e Você (Io e te - 2012), do romance de Niccolò Ammaniti, sobre um adolescente introvertido que diz a seus pais que ele está indo em uma viagem de esqui, mas passa seu tempo sozinho em um porão. Um filme subestimado, diga-se e creio que depois de sua morte será revisto com outros olhos. E recriando época com essa maravilhosa máquina do tempo que é o Cinema como ele adorava citar sempre, termino aqui a minha singela bio de Bertolucci. Agradeço a ele por ter ajudado na minha formação. Ele faz parte de minha educação cinéfila sem dúvida alguma. Recomendo seus filmes, todos eles:
A Morte (1962)
Antes da Revolução (1964)
Il canale (1966) - Curta-Metragem/Documentário
Partner (1968)
Amore e rabbia (1969)
- Filme em Conjunto. O Seguimento dirigido por ele é "Agonia"
O Conformista (1970)
- sua outra Obra-Prima que acabei não citando no texto!
Preciso rever e fazer um post!
A Estratégia da Aranha (1970)
La salute è malata (1971)
- Curta-Metragem/Documentário
O Último Tango em Paris (1972)
1900 (1976)
La Luna (1979)
A Tragédia de um Homem Ridículo (1981)
L'addio a Enrico Berlinguer (1984)
- Documentário
Cartoline dalla Cina (1985)
- Curta-Metragem/Documentário para TV
O Último Imperador (1987) - 9 Oscars!
12 registi per 12 città (1989)
- Documentário - Seguimento: "Bologna"
O Céu que nos Protege (1990)
O Pequeno Buda (1993)
Beleza Roubada (1996)
Assédio (1998)
Ten Minutes Older: The Cello (2002)
- Seguimento: "Histoire d'eaux"
Os Sonhadores (2003)
Eu e Você (2012)
Venice 70: Future Reloaded (2013)
- Documnetário - Seguimento: "Scarpette rosse"
***
NOVECENTO - 1900 (1976) - um ambicioso projeto do diretor. Precisei revê-lo dias atrás para ter a certeza de uma coisa; não importa quão amorosamente tenham sido filmados, esses 45 anos de conflito entre aristocratas e trabalhadores rurais e que, segundo o filme, raramente contêm alguma felicidade. Na verdade, o que Bertolucci mostra neste que é o seu épico mais bem realizado estando no mesmo patamar de O Último Imperador, é que a realidade chega para massacrar toda alegria que acidentalmente emerge no horizonte. Para mim ainda é curioso como a fita foi concebida para aquele espectador que, francamente, possa a ser um ignorante quanto a história social italiana e tenha a oportunidade de assistir ao filme tendo esperanças de ver se, por uma virada do destino, as coisas melhoram no final. Não é exatamente o que sucede, como os combates violentos bem no início do filme comprovam. Em outras palavras, e como no cinema deve ser, o que torna 1900 ainda mais eloquente enquanto arte é o seu elenco internacional, um caso raríssimo que funciona lindamente aqui. Há um misto de grandes atores (italianos, franceses e americanos) que faz desta experiência politicamente enfática um filme sensacional.
Pra início de conversa é estrelado (e também protagonizado) pelo grande ROBERT DE NIRO que na época vinha de uma ascensão artística com Martin Scorsese e tendo feito outros filmes importantes com Brian de Palma e estrelado como coadjuvante numa trama paralela na obra-prima O Poderoso Chefão Parte II, de Coppola. E também pelo ator francês Gérard Depardieu que assim como o parceiro de cena americano, é também um dos nomes artísticos que representa o seu país. Provavelmente menos famoso que De Niro, mas que já havia participado até aquele momento de fitas instigantes como Adorável Gozador (Le viager- 1972), de Pierre Tchernia, uma daquelas comédias tipicamente francesas e futuramente indicado ao Oscar de Melhor Ator, o único de sua carreira, numa adaptação de Cyrano de Bergerac (1990), também nomeado a Melhor Filme Estrangeiro. É lembrado também pelas produções O Homem da Máscara de Ferro (1998), de Randall Wallace, a comédia de papai e filhinha da sessão da tarde Meu Pai Herói (1994), com Katherine Heigl e a super-produção mal sucedida de Ridley Scott:1492: A Conquista do Paraíso (1992), no papel de Cristóvão Colombo. E agradeço Bertolucci pela escolha de ambos nos papéis centrais, afinal, como o próprio diretor afirmava ter gostado do fato de que este seu filme foi listado entre os grandes filmes políticos contendo uma mensagem fortemente gritante fazendo com que o público busque o prazer em outro lugar, mas tudo é possível especialmente pelas performances de De Niro e Depardieu neste que é o primeiro e um dos mais longos filmes de metáfora política já realizado.
Nota-se todo o cuidado e amor de Bertolucci pelo projeto. E diga-se de passagem, um filme que só foi possível depois do êxito, para o bem e para o mal, assombroso de O Último Tango em Paris. Assim sendo, como já foi dito, a trama percorre quatro décadas de história da luta social. É uma película, acreditem, de cinco horas! Perfeito para ter sido lançado como minissérie, mas ousaram por lançá-lo nos cinemas. Mas, óbvio, foi divido em duas partes. Mas, que também fique claro. Foi uma árdua filmagem. Não foi feito para ser divertido. E, quanto a isso, Bertolucci ia até o fim com o seu virtuosismo cinematográfico com mão de ferro. E para você já habituado na visão do diretor, sim, é um filme polêmico, sobretudo nas cenas de sexo e nudez explícito. Dito isso, é também um filme recompensador depois que terminamos de assistir pacientemente. Pode soar pretensioso demais e até forçado. Engano. 1900 funciona comigo, mas é um filme que faz presumir um conhecimento mais apurado e mesmo que básico da história moderna da Itália. Bertolucci vincula aqui todos os pontos mais sutis dessa luta social aos destinos entrelaçados de dois homens. Começando com cenas sangrentas dignas de filmes gore de horror, passadas na zona rural italiana no pós-guerra. É uma narrativa que retorna ao nascimento quase simultâneo de dois netos importantes - o do proprietário de um vinhedo vivido por BURT LANCASTER e o de seu melhor funcionário na pele de STERLING HAYDEN. Por ironia do destino os dois tornam-se melhores amigos de infância. Quando adultos, porém, Alfredo (De Niro) leva a vida hedonística e vazia que sua ascendência aristocrática lhe permite, enquanto Olmo (Depardieu - e que, aliás, era um galã na época!) continua sendo um trabalhador zangado. Centradas sobretudo na propriedade e em uma aldeia próxima, as locações limitadas ampliam a sensação de microcosmo transmitida pelo filme: os homens simbolizam as classes sociais divididas da Itália, a área em que vivem sendo a própria Itália. Quando Alfredo se casa com uma moça sofisticada, papel de DOMINIQUE SANDA (havia atuado para o diretor em "O Conformista" e é conhecida em filmes como "Rios Vermelhos", de Kassovitz e protagonista de "O Primeiro Amor", 1970, do também ator Maximilian Schell), os trabalhadores esperam obter condições melhores, mas um capataz de fazenda brutal interpretado esplendidamente por DONALD SUTHERLAND, como um vilão inesquecível e provavelmente a lembrança mais impactante do filme, torna isso impossível usando sua coerção de Camisa Negra.
Pode parecer trama de telenovela. Talvez os grandes autores do gênero rural como Benedito Ruy Barbosa tenha bebido desta fonte. De qualquer forma, 1900 configura entre os mais honestos filmes megalomaníacos do cinema. Com um elenco fenomenal, direção de arte e fotografia caprichadas e composição sinfônica clássica assinada pelo mestre Ennio Morricone. É também polêmico por evidenciar os pênis de De Niro e Depardieu numa cena de transa bissexual com Stefania Casini. Puro Bertolucci ao ligar as câmeras e dizer ação no mais íntimo e profundo encontro visceral do erotismo ao pano de fundo histórico pungente.
Itália | França | Alemanha Ocidental
Drama Histórico
5h 17min.
⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️
ALBERTO
GRIMALDI
apresenta
um
filme de
BERNARDO
BERTOLUCCI
NOVECENTO
com
ROBERT
DE NIRO
GÉRARD
DEPARDIEU
DOMINIQUE
SANDA
FRANCESCA
BERTINI
LAURA
BETTI
WERNER
BRUHNS
STEFANIA
CASINI
ANNA
HENKEL-GRÖNEMEYER
ELLEN
SCHWIERS
PAULO
BRANCO
STERLING
HAYDEN como Leo Dalcò
ALIDA
VALLI como Signora Pioppi
ROMOLO
VALLI como Giovanni Berlinghieri
também
estrelando
STEFANIA
SANDRELLI
DONALD
SUTHERLAND
e
BURT
LANCASTER
Música
de
ENNIO
MORRICONE
Fotografado
por
VITTORIO
STORARO
Montagem
FRANCO
ARCALLI
Direção
de Arte
MARIA
PAOLA MAINO
GIANNI
QUARANTA
EZIO
FRIGERIO
Figurinos
GITT
MAGRINI
Roteiro
FRANCO
ARCALLI
GIUSEPPE
BERTOLUCCI
BERNARDO
BERTOLUCCI
Produtor
ALBERTO
GRIMALDI
Diretor
BERNARDO
BERTOLUCCI
©
1976 PEA - Produzioni Europee Associate - Roma / Les Productions Artistes
Associes S.A. Paris / Artemis Film GMBH – Berlin - Technicolor












Um comentário:
Nos anos noventa um versão de "1900" dublada em italiano chegou a circular por aqui em VHS e depois em DVD.
Realmente a trama e o estilo lembram uma novela em alguns momentos, ou como você citou, os autores daqui também copiaram o estilo e adaptaram para os folhetins de tv.
Abraço
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