sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

ūüé¨ 1900 de Bertolucci (1976)

Bernardo Bertolucci (1941–2018)

Morreu no dia 26 de Novembro um dos nomes mais ressonantes do Cinema Mundial. Envolvido em pol√™micas com filmes que marcaram gera√ß√Ķes. Bertolucci foi um dos poucos mestres da s√©tima arte em contar hist√≥rias que soube unificar uma paix√£o pelo cinema mesclado a um erotismo singular que se tornou a sua marca registrada. O post de hoje √© um especial sobre a obra do cineasta, mas tamb√©m √© uma resenha de um dos filmes mais interessantes do mesmo lan√ßado algumas d√©cadas... 1900, de 1976, um drama hist√≥rico que √© certamente hoje em dia entre todos os filmes dele um dos menos comentados. Trata-se de  uma hist√≥ria √©pica de uma luta de classes na It√°lia do s√©culo XX, vista pelos olhos de dois amigos de inf√Ęncia em lados opostos... mas, por enquanto, vamos conhecer um pouco mais de Bertolucci...


Bernardo Bertolucci e Luca Guadagnino
Pouco antes em seus √ļltimos suspiros de vida vencido por uma longa batalha contra um c√Ęncer, ele foi um dos mais bem sucedidos diretores da safra de artistas italianos dos anos 70. Era filho do poeta Attilio Bertolucci (1911-2000), nasceu em 16 de mar√ßo de 1941, em Parma, Em√≠lia-Romanha, It√°lia. Cresceu envolvido  pelo Cinema, fazendo fitas amadoras desde os doze anos. Trabalhou como assistente de Pasolini em Accattone - Desajuste Social (1961), publicou poemas. Come√ßou com filmes engajados, mas encaminhou-se a uma esp√©cie de desespero po√©tico e escandaloso com o sempre comentado cl√°ssico √öltimo Tango em Paris (Ultimo tango a Parigi - 1972) , que, na √©poca, chegou a ser censurado em muitos pa√≠ses, inclusive no Brasil ditatorial. Na It√°lia, foi condenado e teve suas c√≥pias queimadas! Tornou-se uma celebridade mundial com 1900, este que falarei, um ambicioso painel da hist√≥ria da It√°lia , com uma "√≥tica materialista hist√≥rica". Depois disso, uma inexplic√°vel decad√™ncia e sil√™ncio e um retorno triunfante com o consagrado O √öltimo Imperador (The Last Emperor -1987), que lhe deu o Oscar de Melhor Diretor. Em seguida adaptou a obra de Paul Bowles em O C√©u que nos Protege (The Sheltering Sky- 1990) com Debra Winger e John Malkovich, e tentou contar em O Pequeno Buda (Little Buddha- 1993), as origens do budismo, com Keanu Reeves no papel do pr√≠ncipe Siddhartha. 

Bertolucci e Marlon Brando
filmagens de "O √öltimo Tango em Paris"
Beleza Roubada ( Stealing Beauty- 1996), talvez o melhor papel de Liv Tyler, foi selecionado para o Festival de Cannes, ali√°s, foi este filme que marcou seu retorno √†s filmagens em territ√≥rio italiano, mostrando a transforma√ß√£o de uma adolescente em mulher, e que, sim, revelou a jovem Tyler. Mas seu melhor filme, em minha opini√£o, foi Ass√©dio (1998), com  Thandie Newton e David Thewlis, uma produ√ß√£o honesta e modesta, feita originalmente para a televis√£o italiana sob o t√≠tulo "L'assedio", mas que acabou exibida em salas de Cinema no resto do mundo. Provavelmente a sua √ļltima grande obra-prima (ou pequena obra-prima, um Bertolicci menor como muitos preferem dizer) seja o sensacional (e quente) Os Sonhadores (The Dreamers- 2003), com o trio  Michael Pitt, Louis Garrel e revelando Eva Green. Mas, ainda dirigiu o √≥timo Eu e Voc√™ (Io e te - 2012), do romance de Niccol√≤ Ammaniti, sobre um adolescente introvertido que diz a seus pais que ele est√° indo em uma viagem de esqui, mas passa seu tempo sozinho em um por√£o. Um filme subestimado, diga-se e creio que depois de sua morte ser√° revisto com outros olhos. E recriando √©poca com essa maravilhosa m√°quina do tempo que √© o Cinema como ele adorava citar sempre, termino aqui a minha singela bio de Bertolucci. Agrade√ßo a ele por ter ajudado na minha forma√ß√£o. Ele faz parte de minha educa√ß√£o cin√©fila sem d√ļvida alguma. Recomendo seus filmes, todos eles:
A Morte (1962)
Antes da Revolução (1964)
Il canale (1966) - Curta-Metragem/Document√°rio 
Partner (1968)
Amore e rabbia (1969) 
- Filme em Conjunto. O Seguimento dirigido por ele é "Agonia"
O Conformista (1970) 
- sua outra Obra-Prima que acabei n√£o citando no texto! 
Preciso rever e fazer um post! 
A Estratégia da Aranha (1970)
La salute è malata (1971)
- Curta-Metragem/Document√°rio
O √öltimo Tango em Paris (1972)
1900 (1976)
La Luna (1979)
A Tragédia de um Homem Ridículo (1981)
L'addio a Enrico Berlinguer (1984) 
- Document√°rio 
Cartoline dalla Cina (1985) 
- Curta-Metragem/Document√°rio para TV
O √öltimo Imperador (1987) - 9 Oscars! 
12 registi per 12 citt√† (1989) 
- Document√°rio - Seguimento: "Bologna"
O Céu que nos Protege (1990)
O Pequeno Buda (1993)
Beleza Roubada (1996)
Assédio (1998)
Ten Minutes Older: The Cello (2002) 
- Seguimento: "Histoire d'eaux"
Os Sonhadores (2003)
Eu e Você (2012)
Venice 70: Future Reloaded (2013)
- Documnet√°rio - Seguimento: "Scarpette rosse"

***

NOVECENTO - 1900 (1976) - um ambicioso projeto do diretor. Precisei rev√™-lo dias atr√°s para ter a certeza de uma coisa; n√£o importa qu√£o amorosamente tenham sido filmados, esses 45 anos de conflito entre aristocratas e trabalhadores rurais e que, segundo o filme, raramente cont√™m alguma felicidade. Na verdade, o que Bertolucci mostra neste que √© o seu √©pico mais bem realizado estando no mesmo patamar de O √öltimo Imperador, √© que a realidade chega para massacrar toda alegria que acidentalmente  emerge no horizonte. Para mim ainda √© curioso  como a fita foi concebida para aquele espectador que, francamente, possa a ser um ignorante quanto a hist√≥ria social italiana e tenha a oportunidade de assistir ao filme tendo esperan√ßas de ver se, por uma virada do destino, as coisas melhoram no final. N√£o √© exatamente o que sucede, como os combates violentos bem no in√≠cio do filme comprovam. Em outras palavras, e como no cinema deve ser, o que torna 1900 ainda mais eloquente enquanto arte √© o seu elenco internacional, um caso rar√≠ssimo que funciona lindamente aqui. H√° um misto de grandes atores (italianos, franceses e americanos) que faz desta experi√™ncia politicamente enf√°tica um filme sensacional. 

Pra in√≠cio de conversa √© estrelado (e tamb√©m protagonizado) pelo grande ROBERT DE NIRO que na √©poca vinha de uma ascens√£o art√≠stica com Martin Scorsese e tendo feito outros filmes importantes com Brian de Palma e estrelado como coadjuvante numa trama paralela na obra-prima O Poderoso Chef√£o Parte II, de Coppola. E tamb√©m pelo ator franc√™s G√©rard Depardieu que assim como o parceiro de cena americano, √© tamb√©m um dos nomes art√≠sticos que representa o seu pa√≠s. Provavelmente menos famoso que De Niro, mas que j√° havia participado at√© aquele momento de fitas instigantes como Ador√°vel Gozador (Le viager- 1972), de  Pierre Tchernia, uma daquelas com√©dias tipicamente francesas e futuramente indicado ao Oscar de Melhor Ator, o √ļnico de sua carreira, numa adapta√ß√£o de Cyrano de Bergerac (1990), tamb√©m nomeado a Melhor Filme Estrangeiro. √Č lembrado tamb√©m pelas produ√ß√Ķes O Homem da M√°scara de Ferro (1998), de Randall Wallace, a com√©dia de papai e filhinha da sess√£o da tarde Meu Pai Her√≥i (1994), com Katherine Heigl e a super-produ√ß√£o mal sucedida de Ridley Scott:1492: A Conquista do Para√≠so (1992), no papel de Crist√≥v√£o Colombo. E agrade√ßo Bertolucci pela escolha de ambos nos pap√©is centrais, afinal, como o pr√≥prio diretor afirmava ter gostado do fato de que este seu filme foi listado entre os grandes filmes pol√≠ticos contendo uma mensagem fortemente gritante fazendo com que o p√ļblico busque o prazer em outro lugar, mas tudo √© poss√≠vel especialmente pelas performances de De Niro e Depardieu neste que √© o primeiro e um dos mais longos filmes de met√°fora pol√≠tica j√° realizado. 

Nota-se todo o cuidado e amor de Bertolucci pelo projeto. E diga-se de passagem, um filme que s√≥ foi poss√≠vel depois do √™xito, para o bem e para o mal, assombroso de O √öltimo Tango em Paris. Assim sendo, como j√° foi dito, a trama percorre quatro d√©cadas de hist√≥ria da luta social. √Č uma pel√≠cula, acreditem, de cinco horas! Perfeito para ter sido lan√ßado como miniss√©rie, mas ousaram por lan√ß√°-lo nos cinemas. Mas, √≥bvio, foi divido em duas partes. Mas, que tamb√©m fique claro. Foi uma √°rdua filmagem. N√£o foi feito para ser divertido. E, quanto a isso, Bertolucci ia at√© o fim com o seu virtuosismo cinematogr√°fico com m√£o de ferro. E para voc√™ j√° habituado na vis√£o do diretor, sim, √© um filme pol√™mico, sobretudo nas cenas de sexo e nudez expl√≠cito. Dito isso, √© tamb√©m um filme recompensador depois que terminamos de assistir pacientemente. Pode soar pretensioso demais e at√© for√ßado. Engano. 1900 funciona comigo, mas √© um filme que faz presumir um conhecimento mais apurado e mesmo que b√°sico da hist√≥ria moderna da It√°lia. Bertolucci vincula aqui todos os pontos mais sutis dessa luta social aos destinos entrela√ßados de dois homens. Come√ßando com cenas sangrentas dignas de filmes gore de horror, passadas na zona rural italiana no p√≥s-guerra. √Č uma narrativa que retorna ao nascimento quase simult√Ęneo de dois netos importantes - o do propriet√°rio de um vinhedo vivido por BURT LANCASTER e o de seu melhor funcion√°rio na pele de STERLING HAYDEN. Por ironia do destino os dois tornam-se melhores amigos de inf√Ęncia. Quando adultos, por√©m, Alfredo (De Niro) leva a vida hedon√≠stica e vazia que sua ascend√™ncia aristocr√°tica lhe permite, enquanto Olmo (Depardieu - e que, ali√°s, era um gal√£ na √©poca!) continua sendo um trabalhador zangado. Centradas sobretudo na propriedade e em uma aldeia pr√≥xima, as loca√ß√Ķes limitadas ampliam a sensa√ß√£o de microcosmo transmitida pelo filme: os homens simbolizam as classes sociais divididas da It√°lia, a √°rea em que vivem sendo a pr√≥pria It√°lia. Quando Alfredo se casa com uma mo√ßa sofisticada, papel de DOMINIQUE SANDA (havia atuado para o diretor em "O Conformista" e √© conhecida em filmes como "Rios Vermelhos", de Kassovitz e protagonista de "O Primeiro Amor", 1970, do tamb√©m ator Maximilian Schell), os trabalhadores esperam obter condi√ß√Ķes melhores, mas um capataz de fazenda brutal interpretado esplendidamente por DONALD SUTHERLAND, como um vil√£o inesquec√≠vel e provavelmente a lembran√ßa mais impactante do filme, torna isso imposs√≠vel usando sua coer√ß√£o de Camisa Negra. 


Pode parecer trama de telenovela. Talvez os grandes autores do g√™nero rural como Benedito Ruy Barbosa tenha bebido desta fonte. De qualquer forma, 1900 configura entre os mais honestos filmes megaloman√≠acos do cinema. Com um elenco fenomenal, dire√ß√£o de arte e fotografia caprichadas e composi√ß√£o sinf√īnica cl√°ssica assinada pelo mestre Ennio Morricone. √Č tamb√©m pol√™mico por evidenciar os p√™nis de De Niro e Depardieu numa cena de transa bissexual com Stefania Casini. Puro Bertolucci ao ligar as c√Ęmeras e dizer a√ß√£o no mais √≠ntimo e profundo encontro visceral do erotismo ao pano de fundo hist√≥rico  pungente. 

Itália | França | Alemanha Ocidental
Drama Histórico
5h 17min. 
⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️






ALBERTO GRIMALDI apresenta
um filme de
BERNARDO BERTOLUCCI

NOVECENTO

com
ROBERT DE NIRO
G√ČRARD DEPARDIEU
DOMINIQUE SANDA
FRANCESCA BERTINI
LAURA BETTI
WERNER BRUHNS
STEFANIA CASINI
ANNA HENKEL-GR√ĖNEMEYER
ELLEN SCHWIERS
PAULO BRANCO
STERLING HAYDEN como Leo Dalcò
ALIDA VALLI como Signora Pioppi
ROMOLO VALLI como Giovanni Berlinghieri
também estrelando
STEFANIA SANDRELLI
DONALD SUTHERLAND
e
BURT LANCASTER

M√ļsica de
ENNIO MORRICONE

Fotografado por
VITTORIO STORARO

Montagem
FRANCO ARCALLI

Direção de Arte
MARIA PAOLA MAINO
GIANNI QUARANTA
EZIO FRIGERIO

Figurinos
GITT MAGRINI

Roteiro
FRANCO ARCALLI
GIUSEPPE BERTOLUCCI
BERNARDO BERTOLUCCI

Produtor
ALBERTO GRIMALDI

Diretor
BERNARDO BERTOLUCCI
© 1976 PEA - Produzioni Europee Associate - Roma / Les Productions Artistes Associes S.A. Paris / Artemis Film GMBH – Berlin -  Technicolor

Um coment√°rio:

Hugo disse...

Nos anos noventa um vers√£o de "1900" dublada em italiano chegou a circular por aqui em VHS e depois em DVD.

Realmente a trama e o estilo lembram uma novela em alguns momentos, ou como você citou, os autores daqui também copiaram o estilo e adaptaram para os folhetins de tv.

Abraço

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