SENTIMENTOS, FAMÍLIA E SAPOS
Em
San Fernando Valley, vários
personagens interligados vivem os seus dramas.
Nunca vou esquecer aquela
mulher fazendo um péssimo comentário, diga-se de passagem, com o crítico de
cinema Roger Ebert (procurem o vídeo
no You Tube) alegando que o filme é literalmente uma bagunça! Para a preguiça mental
dela, certamente a fita não fez nenhum sentido. O que a individua ainda não deve
saber é que a obra é mais uma criação original do grande P.T. Anderson. Portanto, o expectador deve ter momentos de
sensações e interpretar as inúmeras metáforas e meandros que a premissa
apresenta, aliás, marca registrada do diretor. Com essa recente temporada do
Oscar, assisti o subestimado (foi ignorado no Oscar como candidato de Melhor
Filme e Diretor/Roteirista), o genial, O
MESTRE (The Master, 2012) com Joaquin Phoenix o que me deu aquela
vontade de olhar na minha coleção e procurar os filmes dele e óbvio, rever
alguns. Magnólia (Idem, 1999) é um
de seus melhores trabalhos, meu predileto. É uma odisseia humanística em forma
de mosaico com diversos personagens, totalmente diferentes, vivendo cada um os
seus respectivos dramas. É isso que o filme evidencia lindamente em sua
magnífica estrutura narrativa épica (mais um roteiro absurdo de Anderson), as
diversas ligações, as coincidências e surpreendentes reviravoltas do destino de
cada um, que se interligam, fator este que é o ponto alto e todo o sentido do
filme.
Magnólia pode ser um filme engraçado (e
até complicado numa primeira sessão), mas também é melodramático - e nem vou
descrever tantos detalhes para não estragar a surpresa e experiência para quem
ainda não teve a oportunidade - o que posso dizer da trama é que tudo acontece
em San Fernando Valley, um bairro urbanizado localizado em uma área
metropolitana no sul da Califórnia,
em Los Angeles, EUA, isto é, local
populoso. Ali, PTA concentra seus nove personagens principais e desenvolve todo
o drama. O que ele fez, ainda, mais uma prova de sua genial originalidade, foi
apresentá-los logo no início de seu filme com uma montagem incrível de Dylan Tichenor (já fez com ele Boogie
Nights e
depois faria Sangue Negro. Paul
também realiza a edição sem créditos)
ao som de “One” da ótima Aimee Mann,
que tem uma letra envolvente e emocionante e que parece não ter fim (se
transformou rapidamente naquelas músicas de cabeceira que não canso de ouvir).
Só com essa apresentação o filme é merecedor de todo o meu entorpecimento.
Magnólia ainda traz temas polêmicos
como o incesto, homossexualidade, drogas e violência, mas tudo é realizado de
modo tão genuíno, que até mesmo o espectador mais politicamente correto, quiçá,
poderá apreciar.
O elenco é formidável! TOM CRUISE no melhor papel de sua
carreira, escrito especialmente para ele, e que na época também filmava o
último filme de Kubrick De Olhos Bem Fechados e que aceitou o desafio depois
de uma visita de PTA ao set e o resultado é excepcional. Eu sempre soube do talento de Cruise (que hoje opta por filmes de
ação) que sempre foi ofuscado pela Academia de todas as maneiras, provavelmente pelo tipo
galã, como sofrem também Brad Pitt e Leonardo DiCaprio. Ele se
destaca como um guru do sexo, extremamente bizarro, marqueteiro e
engraçadíssimo, toda vez que aparece na TV polemizando com seus trejeitos
vulgares e misóginos. É ver para crer.
PTA ainda pôde contar com a
lenda JASON ROBARDS (1922-2000 – de Era Uma Vez No Oeste, 68) em seu último papel no
cinema - morreu pouco depois do fim das filmagens- que entrega uma emocionante
interpretação como um misantropo velho e doente. Ainda tem a incrível, the Best, amo-a, JULIANE MOORE que
sempre fica ao lado do senil personagem de Robards, faz a sua mulher, também
rouba as cenas e esta radiante.
Outro que me comove é JOHN C. REILLY vivendo um policial sem sorte, este disposto a
ajudar, tem um enorme coração! Quem também esta ótima é MELORA WALTERS fazendo uma drogada, traumática por ter sido abusada
sexualmente quando menina e ainda por cima viva o drama do alcoolismo Querem tragédia maior? (ela foi a
primeira personagem a ser criada e todos os demais são conseqüência sua). Quem
também se destaca é o veterano PHILIP
BAKER HALL que descobriu a fama na terceira idade (inclusive por Anderson
que sempre o seleciona em seu elenco, por exemplo, teve o début no ótimo Jogada
de Risco, Sydney, 1996), como um apresentador
popular de um programa televisivo (What Do The Kids Know? – O Que As
Crianças Sabem?)
que descobre que esta prestes a morrer e faz o pai pedófilo acusado pela a
própria filha, a vitimada Melora. No entanto, é WILLIAM H. MACY quem se sobressai,
vivendo um ex- famoso, foi um “Quiz Kid”, maior vencedor de todos os tempos
daquele programa de TV nos anos 60 e que
pretende fazer uma cirurgia oral! Tem ainda o garoto prodígio e sem amigos,
vive sob pressão do pai (Michael Bowen)
e que é humilhado em rede nacional, JEREMY
BLACKMAN, mirim talentoso e que tem antológicas cenas neste programa
apresentando por Hall, um quiz de perguntas e respostas para os nerds e que pretende quebrar o recorde
de H. Macy enfim... Tem ainda os freqüentes colaboradores de PTA: PHILIP
SEYMOUR HOFFMAN (como o enfermeiro de Robards), o porto-riquenho LUIZ GUZMAN,
ALFRED MOLINA (numa pontinha), RICKY JAY e algumas participações interessantes,
como a da indicada ao Oscar, FELICITY
HUFFMAN (Melhor Atriz por Transamérica, 2005) que dão o ar de suas
gratificantes presenças.
O filme não é uma bagunça, é um
apanhado de histórias humanizadas brilhantemente por Anderson que é repleto de
referências inteligentes, até mesmo a própria bíblia. Aborda o significado da
vida e outras questões, o bem e o mal, em suas dimensões e formas naturais. De
fato, Magnólia sempre foi um projeto
ambicioso e ninguém mais poderia fazê-lo a não ser o seu autor. É até difícil
resenhar o filme, que tem a capacidade de retratar assuntos obscuros e
delicados pelo ponto de vista interior de seus personagens, e todos eles,
geralmente, com alguma mágoa.
O que torna tudo ainda mais
saboroso são momentos inexplicáveis como uma misteriosa chuva de sapos, certamente a mais famosa sequência de todo o
filme ou quando um carro acidentalmente entra em uma loja enquanto Dreams, de Gabrielle, cultuada cantora inglesa, esta rolando na rádio (e a
trilha sonora musical deste filme é esplêndida!). Anderson humaniza seus
personagens a tal ponto que é notável ver cada um deles perderem o controle de
suas vidas. Na verdade, a trama é contada de um jeito tão único, que me levou a
crer que o cara é realmente um dos maiores cineastas de sua geração e não vai
demorar muito, estará na lista dos maiores em todos os tempos.
Praticamente todas as locações
apresentam um quadro ou uma foto da flor Magnólia, que tem esse significado,
segundo a numerologia, uma ligação forte com a família. Em outras palavras, que
tende ao lado emotivo, quem sufoca a quem ama e que nas relações de amor e ou/
amizade, quando se machuca, você se recolhe para dentro do seu eu e só desabrocha
depois de um sincero pedido de perdão.
É um filme que me emociona
muito: “Ao Longo de Nossas vidas, devemos
tentar fazer o bem.” Precisa de maiores explicações? É claro que a obra tem
muitas camadas de interpretações e cada um faz a sua, mas a intenção, creio, é
esta, universal. Fazer as pessoas compreenderem que na vida nada se leva e que
aqui temos a oportunidade de perdoar e fazer o bem.
PTA se baseia em ciências
ocultas quando cria seus scripts,
este é o filme que mais exemplifica essa ideia (O Mestre idem) fazendo referências ao
número 82 que é uma passagem bíblica, mais especificamente ao Livro do Êxodo,
8:2. O número 23 também é referencial. Muito se falou que Anderson tenha se
influenciado por uma religião que leva o nome de discordianismo (culto a deusa grega da discórdia, Éris) Bom, nunca
li uma declaração dele falando sobre, de qualquer forma, Anderson é alvo de
falatórios do gênero e ele jurou que O
Mestre não tem nada a ver com a cientologia (este difícil de acreditar
devido às semelhanças do culto e fanatismo apresentados).
![]() |
| melora walters em um desempenho de aplaudir |
Polêmicas à parte, o cara é um cineasta de primeira linha, capaz de criar tomadas de caráter próprio. Não tenho
nenhum problema em repetir essa afirmação: Um filme de P.T. Anderson é sempre
100% original. O que eu menos gosto é Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love, 2002, mesmo assim tem seus predicados).
Recebeu três indicações no Oscar: Ator Coadjuvante (Cruise), Canção
Original (Aimee) e Roteiro Original. Ignorado pela Academia, ao menos o filme
Ganhou O Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2000. O Globo de Ouro deu a Cruise o merecido
prêmio e mais uma indicação para a canção “Save Me.” E nada para Anderson.
Este é um exemplo perfeito de filme
clássico do cinema contemporâneo que estava em voga em Hollywood na década de
90. Com seus zooms e travellings estonteantes, PTA criou uma
obra para se assistir inúmeras vezes e cada revisão fica ainda melhor.
Magnólia é alegórico. Marcante por
diálogos do tipo: -“Nós até podemos ter
esquecido do passado, mas o passado ainda não se esqueceu de nós” -, vilões
humanizados, turbilhão de sentimentos e sapinhos que caem do céu.
EUA
1999
DRAMA
COR
188 min.
NEW LINE/Playarte (Brasil)
★ ★ ★ ★ ★
new line cinema apresenta
uma
produção ghoulardi film company
a p.t.anderson picture
magnolia
john c. reilly julianne moore
tom cruise
philip baker hall jeremy blackman
philip seymour hoffman william h. macy
melora walters jason robards melinda dillon
michael bowen ricky jay felicity huffman
april grace pat healy luis
guzman
alfred molina henry gibson orlando jones
música original por jon brion
fotografado por robert elswit
edição dylan
tichenor casting
cassandra
kulukundis
direção de arte william
arnold mark bridges
decoração de set chris spellman
figurinos por mark bridges
co-produtor daniel
lupi
produtores executivos michael
de luca lynn harris
produtor associado dylan tichenor
produzido por
paul thomas anderson joanne sellar
escrito e dirigido por
paul thomas anderson
magnólia ©1999 New Line Cinema/ Ghoulardi Film
Company/ The Magnolia Project










7 comentários:
Adorei o texto, Rodrigo! Bem apaixonado e nao é para menos: Magnólia é um filme pra vida toda mesmo. Fico embasbacado com a estrutura lógica dele, com esses personagens tão bem delineados, elenco de primeira, direção, roteiro... é uma obra-prima, não tem como! Meu favorito de Anderson, seguido por Bogie Nights.
Tbm vi O Mestre há pouco tempo e me bateu aquela vontade de rever o filme desse mestre hehe. Sou embriagado de amor pelos seus filmes xD
Péssimo! rs. Vou parar...
E seu texto me fez rever aquele vídeo da briga do Ebert com aquela anta... ai ai, seria cômico se não fosse trágico...
Grande abraço, Rodrigo! o/
Texto perfeito.....filmaço.
Belo texto Rodrigo. "Magnólia" também é o meu preferido de PTA. Ainda não consigo declinar se é superior a "O mestre". Precisaria rever os dois e refletir.
No entanto, assim como vc, "Embriagado de amor" é oq ue menos gosto, ainda que reconheça - como vc - seus muitos predicados.
Recentemente, vi uma entrevista em que PTA disse que esse era seu filme mais pessoal e, tb, que era um filme sobre pais e filhos. Noção esta que está completamente vinculada aque vc apresenta no seu texto.
Agora, Tom Cruise nesse filme é mesmo "ver para crer".
Abs
Obrigadão amigos!
Não sei dizer se Magnólia é melhor que O Mestre ou mesmo Sangue Negro e quiça Boogie Nights. fazer fazer o seguinte: deixar num top PTA um empate! Rs É o jeito.
Magnólia é mais pessoal mesmo Reinaldo. O mais sincero de Paul, eu tb acho. Não vi essa entrevista em particular, mas faz sentido ao lembrar do filme.
Abração à todos!
Magnolia também é o meu preferido do PTA! Mas não gostei tanto assim do Mestre.
De fato é o melhor papel do Cruise, que é sim um ótimo ator! Só discordando um pouco em relação a Juliane Moore, que acho uma ÓTIMA atriz, mas aqui me pareceu um pouco exagerada... tudo bem que a personagem faz uso de vários tarja preta e vive num stress constante, mas mesmo assim...
puta texto mesmo Rodrigo... dá vontade de rever Magnolia (pela décima vez, eu acho! hehehe).
(O Mestre tb me despertou a vontade de rever a filmografia do PTA e acabo de assistir a Punch Drunk Love, um grande e injustiçado filme)
Abraços!
"A vida não é curta. Ao contrário, é longa demais"
Este filme é um dos meus preferidos e foi meu segundo texto no Blog.
Um filme para ser visto inúmeras vezes e apreciado ao extremo em todas elas. TSO maravilhosa, atuações soberbas, tema atual e psicologicamente formidável.
Adoro Magnólia e Wise Up de Aimee!
Bruno: Valeu cara!
Poxa, não curtiu "O Mestre"?
Achei sensacional.
Abração.
Patricia: A trilha deste filme me acompanhou durante um bom tempo.... Aimee em grande momento.
Magnólia é um clássico moderno. Seu texto ficou show de bola!
Bjs.
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