GÁS DO RISO!
A tripulação de um avião fica
doente depois da contaminação contida no peixe servido a bordo, sem piloto e
co-piloto, a única esperança dos passageiros e tripulantes não envenenados é um
ex-piloto de guerra alcoólatra que ficou com trauma de voar, um sujeito que
além de tudo encontra-se fragilizado por ter vivido uma história de amor.
“Precisamos achar alguém que possa
pilotar este avião e que não tenha comido peixe no jantar.” Este clássico da comédia, um
tipo de humor inteligente que faz paródia de outros filmes que depois viria a
exaurir o tema, continua insuperável. No quesito, AIRPLANE! (1980) é o melhor do
subgênero. Não vou dizer que é a maior comédia da história do cinema porque
competir com qualquer fita do Billy
Wilder é covardia, no entanto, no estilo detalhista (tudo é motivo de piada do começo ao fim) lindamente bem humorado
que se propôs, é sem dúvida o melhor dentre os inúmeros exemplares. Esta fala
notória citada acima e dita no filme pelo saudoso LESLIE NIELSEN (1926-2010) como o médico a bordo que diagnosticou o
problema por envenenamento no peixe servido, é extraído identicamente de um dos
diálogos do filme que foi a inspiração do projeto, Entre
A Vida E A Morte
(Zero
Hour!) de 1957,
dirigido por Hall Bartlett, um
suspense e drama estrelado por Sterling
Hayden (de O Grande Golpe e Dr. Fantástico, ambos de Kubrick), Dana Andrews e Linda Darnell. Ou seja, premissa similar, porém, literalmente
séria. Muito embora, os diretores tenham estruturado o roteiro passando por
outras fitas sobre filmes catástrofe dos anos 70 – seja Inferno
Na Torre (The Towering Inferno, 1974
de John Guillermin), Terremoto
(Earthquake, 74
de Mark Robson) e é claro, Aeroporto
(Airport, 1970)
do famoso Best-seller de Arthur Hailey,
dirigido por George Seaton.
Geralmente todos rodeados por um elenco de astros e estrelas. Eles também não
perdoam cenas antológicas de outros filmes que não tem uma ligação direta com o
enredo, como: A Um Passo Da Eternidade (From Here
To Eternity, 1953)
de Fred Zinneman, como a cena do
beijo na praia enquanto as ondas cobrem os românticos enamorados Burt Lancaster e Deborah Kerr, assim
como a sequência da discoteca em Os Embalos de Sábado À Noite
(Saturday Night Fever, 77
de John Badham) ao som dos Bee Gees e até mesmo o clássico de
suspense dirigido por Spielberg, Tubarão
(Jaws, 75)
utilizando o tema original de John
Williams logo na abertura, quando a aeronave faz gracinha como se víssemos
uma barbatana passando entre as nuvens. Enfim, mas são inúmeros detalhes que
parodiam algo, em tempo integral, o que acho genial e a grande sacada da obra,
e também eles incluem diversas gracinhas sutis e outras muito evidentes,
desfocadas em pano de fundo enquanto sucede algum diálogo entre dois ou mais
personagens em cena, etc. Confesso aqui a minha predileção por “Apertem
os Cintos...o piloto Sumiu”,
morro de rir toda vez que revejo. Um show à parte. Um daqueles momentos no
cinema em que tudo acaba saindo melhor que o esperado.
Outro ponto interessante é o
filme ser dirigido não apenas por um ou dois, mas três malucos, e aqui três
nunca é demais! Eles são: JIM ABRAHAMS,
DAVID ZUCKER e JERRY ZUCKER e ou/ ZAZ, os mesmos criadores da ótima e
curta série que daria origem a trilogia CORRA
QUE A POLÍCIA VEM AÍ
(sempre estrelado por Lesnie Nielsen, o “funny face”), que adoro: POLICE SQUAD! (1982). É do mesmo trio mais
exemplares engraçadíssimos; TOP SECRET! Super-Confidencial (1984 estrelado por um jovem Val Kilmer) e ainda o divertido POR
FAVOR, MATEM A MINHA MULHER (Ruthless People, 1986), estrelado por Danny DeVito e a diva Bette Midler. Sozinhos, cada um
continuaria a dirigir filmes do gênero e experimentando outras fórmulas e que
depois do sucesso confirmado, de maneira até mesmo irregular e menos expressiva.
Abrahams,
por exemplo, dirigiu pelo menos outras três ótimas comédias: CUIDADO
COM AS GÊMEAS (Big Business, 1988)
novamente com Midler e estrelado também pela comediante Lily Tomlin; TOP GANG! – ASES MUITO LOUCOS (Hot
Shots! 1991) e
sua continuação TOP GANG 2! – A MISSÃO (Hot Shots!
Part Deux, 1993)
sucessos da sessão da tarde e que fazem o mesmo que Apertem Os Cintos... parodiando blockbusters de Hollywood, aqui neste caso Top Gun – Ases Indomáveis com Tom Cruise e Rambo
2 : A
Missão, com
Stallone, mostrando uma nova faceta do ator Charlie Sheen que prova saber fazer comédia nonsense lindamente. Aposentou-se do cinema e da televisão
concluindo numa fitinha sem graça, MÁFIA! (Jane Austen´s Mafia! 1998). Já David Z. faria sem eles
os dois primeiros filmes de Corra
Que A Polícia Vem Aí,
The
Naked Gun: From The Files of Police Squad! o primeiro em 1988 e 2 ½ (The Smell of Fear) em 1991 sempre com Nielsen, a
viúva de Elvis, Priscilla Presley,
outra revelação e O. J. Simpson.
Isso sem contar com o hilário George Kennedy.
Infelizmente, passou a bola do último da trilogia para Peter Segal 33 1/3 – O Insulto Final, The Final
Insult, 1994,
que mesmo engraçado, destacando algumas cenas hilárias com a esquisita Anna Nicole Smith, poderia ser melhor. Depois,
David assumiria a série Todo
Mundo Em Pânico,
um filhote genuíno dessas criações, mas sem o mesmo brilho, pegada, destes
primeiros.
Quanto ao Jerry Z.? Bom, ele só se deu bem
mesmo com o sucesso mundial de Ghost– Do Outro Lado Da Vida (Ghost, 1990) e graças ao seu entendimento
de comédias, ajudou a incrível Whoopi
Goldberg roubar as cenas e ganhar um Oscar. Tentou ressuscitar o estilo
numa comédia fracassada que faz graça com a idéia de “Corrida Do Ouro” em TÁ
TODO MUNDO LOUCO! UMA CORRIDA DE MILHÕES (Rat Race, 2001) trazendo um grande elenco,
incluindo a própria Whoopi, o inglês Rowan
Atkinson, o Mr. Bean, o veterano John Cleese (do grupo Monty
Python) e o oscarizado Cuba Gooding Jr. numa tristeza sem
tamanha.
O elenco é dignamente acertado
e cada um deles me faz rir. Alguns fazendo graça sendo levado a sério como o
mestre Lesnie Nielsen, que dispensa mais comentários, por outro lado, não
somente Nielsen que faz com que compreendemos sua representação como se
estivesse no mais sério dos dramas, mas até mesmo o ótimo ROBERT HAYS (também conhecido
pelo papel do Homem
De Ferro numa adaptação para a TV em
1994, mas é neste filme que é mais lembrado), como o piloto que é a única esperança de pousar
o avião com segurança. E, obviamente sua amada, interpretada por JULIE HAGERTY. Esse casal, aliás, com
uma incrível química, são capazes de extrair riso do mais triste sujeito.
O filme ainda traz o ex-jogador
de basquete que tentou a carreira de ator, KAREEM
ABDUL-JABBAR e certamente os diretores se aproveitam disso para zoá-lo, no
papel do co-piloto que acaba sendo substituído por um boneco inflável (Otto!) que é acionado pelo piloto
automático! Morro de rir. Outras figuras como LLOYD BRIDGES (1913-1998) que continuou a trabalhar em muitos
outros projetos com Abrahams, faz do filme muito mais motivo para riso. O velho
é ultra-mega engraçado, tão bom e genial quanto Nielsen em alguns momentos.
Entre os veteranos, está também o lendário Sr.Phelps
da série televisiva Missão Impossível (Mission:
Impossible, 1966-1973
de Bruce Geller) PETER GRAVES (1926-2010) hilário como o
Capitão Oveur, o próprio piloto que descobre
que também ingeriu peixe contaminado (+ risos) e obviamente ROBERT STACK (1919-2003), outro astro
da TV, foi o policial Eliot Ness da
série OS INTOCÁVEIS (The Untouchables, entre 1959-63), no papel de
um veterano instrutor de vôo. Mas o único que está totalmente soberbo e por
isso nem um pouco sério, eis um destaque, mesmo fazendo poucas aparições, é STEPHEN STUCKER (1947-1986) como o
controlador do aeroporto, que fazia umas palhaçadas amalucadas, dava saltinhos,
gritava, fazia caras e bocas, etc. Gosto também do trabalho de LORNA PATTERSON, a loira peituda
comissária de bordo que tem momentos significativos como pegar o violão e
cantar para uma menininha que estava doente viajando com a mãe e aparelhos
respiratórios. Quem assistiu lembra demais desta cena e já começa a rir!
O filme é assim, sem medo de
tecer críticas sociais, raciais ou qualquer coisa que o valha, abrindo várias
vertentes do bom humor (há freiras, negros malandros com seu próprio e
indecifrável vocabulário bem década de 70e outras coisas mais). O ponto alto é
que a fita, pelo menos naquela época, evitava maiores vulgaridades – não que evitem
algumas delas - e não tem tanto humor
picante como nos derivativos posteriores criados, por exemplo, pelos irmãos
Farrelly (criadores de Quem
Vai Ficar Com Mary?
e Débi
& Lóide) e
até mesmo os irmãos afro-americanos, Wayans
(Keenen, Shawn, Marlon,
idealizadores de Todo Mundo Em Pânico). De fato, Apertem
Os Cintos...
têm um limite para momentos mais grosseiros, certamente o mais leve neste
conceito é a cena em que o boneco inflável murcha e Hagerty tem que enchê-lo
com a boca em uma posição e movimento que simula um sexo oral. Quer dizer, não
é nada disso, e tampouco explícito como faz, de fato, os Wayans com sexo e
escatologia, mas é o que imagina as mentes sujas dos espectadores, ainda mais
com a interrupção de Nielsen no cockpit.
O filme foi um sucesso
arrebatador e inesperado para a Paramount,
arrecadou nas bilheterias dos Estados Unidos e no mundo cerca de 83 milhões de
dólares e teve seu legado lembrado na comédia cinematográfica americana, e
acabou se tornando um dos maiores clássicos do gênero. Muito embora, a obra de Mel Brooks seja igualmente genial neste
ponto, principalmente os primeiros filmes como BANZÉ NO OESTE (Blazing Saddles, 74) e O JOVEM FRANKENSTEIN (Young
Frankenstein, 74),
também merecem figurar entre os maiores neste perfil de humor, até porque foi
até mais inaugural do que Airplane!
De qualquer forma, ZAZ tiveram a honra de ver sua obra, segundo o American Film Institute, como o décimo
filme mais engraçado de todos os tempos.
No Brasil, a fita não chegou a
ser completamente dublada devido à censura especializada da ditadura militar,
portanto, vários trechos foram cortados antes mesmo de serem exibidos na tela.
Mesmo assim, estreou com grande rentabilidade no país. Na TV era sucesso
garantido no Cinema em casa do SBT,
concorrente direto da Sessão Da Tarde,
mas também já foi muitas vezes exibido, com a dublagem clássica, nos Corujões das madrugadas. Hoje em dia é
raro assisti-lo na televisão aberta.
Parodiando momentos
assustadores, marcantes e discursivos nos filmes sem dó nem piedade, Apertem
Os Cintos...
continua a entreter e a ser um prato cheio.
O filme passa aquela sensação, em meio a tanto riso, cenas que
gostaríamos de ver nos momentos antológicos do cinema. Hoje em dia, esse método
já se esgotou facilmente com produções de fundo de quintal, sem a audácia e
brilhantismo desses três diretores patetas, no bom sentido.
Teve uma continuação
engraçadinha, mas sem a genialidade deste primeiro; APERTEM
OS CINTOS, O PILOTO SUMIU 2ª PARTE (Airplane II: The
Sequel, 1982),
só que desta vez realizada por Ken
Finkleman, com grande parte do elenco original e ainda adicionando figuras
como William Shatner da série Star
Trek. E nem
preciso dizer que tipo de paródia foi daquela vez. Muito embora seja um
apêndice, ainda assim é uma guilty
pleasure.
EUA
1980
COMÉDIA
COR
88 min.
PARAMOUNT
★ ★ ★ ★
PARAMOUNT PICTURES
APRESENTA
UMA PRODUÇÃO DE HOWARD W. KOCH
Estrelando
ROBERT HAYS JULIE HAGERTY
LLOYD
BRIDGES LESLIE NIELSEN
ROBERT
STACK PETER GRAVES LORNA PATTERSON
STEPHEN STUCKER
KAREEM ABDUL-JABBAR
FRANK
ASHMORE JONATHAN BANKS CRAIG BERENSON
BARBARA BILLINGSLEY
ROSSIE HARRIS
& Apresentando
OTTO como “Ele Mesmo”
OTTO como “Ele Mesmo”
Produtores
Executivos
JIM
ABRAHAMS
DAVID
ZUCKER
JERRY
ZUCKER
Música de
ELMER BERSTEIN
Direção
de Fotografia JOSEPH BIROC
Montagem PATRICK KENNEDY
Direção
de arte WARD PRESTON Figurinos
ROSANNA NORTON
Produzido
por JON DAVISON
ESCRITO PARA AS TELAS E DIRIGIDO POR
JIM ABRAHAMS
DAVID ZUCKER
JERRY ZUCKER
AIRPLANE!
©1980 UM FILME
PARAMOUNT










5 comentários:
Ótima postagem.
É um filme engraçadíssimo que praticamente criou o gênero da paródia escrachada.
Até aquele momento era Mel Brooks o cara das paródias, porém o trio ZAZ elevou o besteirol a última potência e acertou em cheio.
O elenco é sensacional, eles pegaram vários atores veteranos da tv (Leslie Nielsen, Robert Stack, Peter Graves, Lloyd Bridges)que estavam praticamente aposentados e ressuscitaram as carreiras dos sujeitos.
Abraço
Clássico, perdi as contas de quantas vezes vi. Ótimo resgate, Rodrigo. O filme tem momentos sensacionais mesmo. Deu até vontade de rever.
bjs
vi faz tempo...cumprimentos cinéfilos.
O Falcão Maltês
Rô,
Bom Dia!
Que saudades dessa época, do Leslie e esses filmes que divertiam bastante.
Querido Amigo,
Parabéns, pelas postagens! Li Domésticas, Pele Que Habito, Cidadão Kane, Hitch...Que aula, ein?
Você escreve muito bem, seu blog é visualmente gostoso de passear, continue assim que a gente agradece,rs!
Besos
Hugo: Brooks e os ZAZ merecem aplausos por serem os únicos a criar um gênero cômico extremamente original. As piadas acontecem em tempo integral, algumas são mais escrachadas, mas outras são bem sutis. Leslie Nielsen, Robert Stack, Peter Graves, Lloyd Bridges simplesmente arrasam!
Obrigado
Amanda: Tb perdi as contas de quantas vezes eu á vi Nanda, hehehe principalmente no SBT! Bjs.
Antonio: Reveja. Abração!
Patricia: Sem palavras querida, assim você infla meu ego! rs
Valeu mesmo!
Besos!!!!
Abs.
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