NA PONTA DOS PÉS
Uma
jovem e promissora bailarina está dividida entre o homem que ela ama e sua
busca para tornar-se a mais famosa dançarina de uma companhia de balé. Mas o
que é mais importante?
Os Sapatinhos Vermelhos (The Red Shoes, 1948) é certamente o filme que
apresenta o mais fantástico décor que
eu já presenciei no cinema. Toda vez que revejo fico hipnotizado. Uma das
maiores e mais influentes fitas em todos os tempos principalmente para o gênero
musical que ainda reproduz uma tendência criada pelo filme com longas
sequências musicadas de interlúdios estilizados e sofisticados. Eis uma
produção de dar inveja aos americanos, o que me garante o fato de que as
produções inglesas são tão melhores, grandiosas e ou/ ousadas do que as
Hollywoodianas. Ao contrário dos contos de fada adaptados por Walt Disney, esta obra-prima
superabundante é baseada na obra de Hans
Christian Andersen
(1805-1875), muito longe de ser uma Pequena
Sereia, o filme remonta a ideia de que a heroína principal tem que saber
negligenciar sua vida pessoal para se devotar integralmente e passionalmente à
arte e que culminará numa doentia fixação em prol da dança e a obra de
Andersen, The Red
Shoes, fala de uma garota cujos sapatos vermelhos a mantêm dançando
até ela cair morta, literalmente!
Ainda é impressionante o feito
espetacular dos cineastas e produtores independentes MICHAEL POWELL (diretor de A
Tortura do Medo, Peeping Tom, 1960
– leia aqui) e EMERIC PRESSBURGER
que por toda a carreira co-dirigiu produções soberbas com Powell (meu outro
filme predileto deles é NARCISO NEGRO, Black Narcissus, 1947 e também CORAÇÃO
INDÔMITO, The Wild Heart,
1957, feito em uma versão por Rouben
Mamoulian nos Estados Unidos). Enfim, são autores de muitas realizações do
cinema inglês, aliás, Pressburger se sobressaiu mais ainda como roteirista e é
ele quem concebe o script principal
do filme (dirigiram também o ótimo NESTE MUNDO E NO OUTRO, A Matter of
Life and Death,
1946, com David Niven), mas com
diálogos adicionados por KEITH WINTER,
que escreve as mais diabólicas falas para um ator estupendo como ANTON WALBROOK que murmura com
satisfação suas decisões religiosas quanto ao balé, embora que por trás do
homem de negócios, rico, sofisticado e firme, existe um homem amargurado e
solitário.
Victoria
‘Vicky’ Page é
a estreia de MOIRA SHEARER no cinema
(mas não teve uma carreira extensa como atriz) e aplaudo várias e várias vezes
essa mulher. Ela é jovem, atraente, pequena, ruiva, obstinada, tímida e que precisa
dançar da mesma forma que precisa viver, quando questionada. E como toda Love Story, com princesas e seus príncipes,
a moça se apaixona por um compositor que é o regente da orquestra sinfônica que
acompanha as apresentações, Julian
Craster, muito bem interpretado por MARIUS
GORING. No entanto, seu empresário, Boris
Lermontov (Walbrook) enxerga esse relacionamento como um obstáculo para seus negócios, interfere nesse amor obrigando-a decidir entre a carreira e o
homem de sua vida. E é aí que o conto de fadas termina (o primeiro grande ato
do filme é praticamente sem conflitos e antagonismos, mas é tão maravilhoso que
não chega a incomodar). Lermontov é uma espécie de bruxa malvada que é um híbrido
de Rasputin e Svengali e que transparece um sentimento confuso e estranho. Estaria apaixonado romanticamente por sua
estrela? Orgulhoso por tê-la descoberto e lhe dado a primeira grande
oportunidade de ser a bailarina principal da obra “Os Sapatinhos Vermelhos”, um
dos mais aplaudidos sucessos de sua companhia, depois que a antiga estrela, Boronskaja, (a ótima LUDMILLA TCHÉRINA) faz o mesmo que
Vicky e decide ser feliz como a mulher de um homem só, casando-se e se despedindo
de seus dias gloriosos como bailarina. O problema é que as decisões da mocinha
deixam o “vilão” de Walbrook obcecado pelo fato de que ninguém, nunca mais,
poderá apresentar The Red Shoes em
qualquer companhia e muito menos na sua! Somente ela, na ponta dos pés,
demonstrou competência para fazê-lo. Depois do fato, a trama cai em um emaranhado
de arrependimentos e conflitos terrificantes que irá selar o destino de
Victoria e de todos os demais para sempre.
Powell e Pressburger são
auxiliados por uma equipe de mestres. O coreógrafo ROBERT HELPMANN (já dirigiu e encenou filmes como Don
Quixote, 1973,
produção australiana inspirado na obra de Cervantes e que é também um balé) que
como ator vive aqui na pele de Ivan
Boleslawsky e é o responsável pelo estupendo The ballet of The Red
Shoes. Além
de, o maestro Sir. THOMAS BEECHAM
(também conhecido como um famoso empresário do ramo), o fotógrafo JACK CARDIFF (que ganhou o prêmio
honorário da Academia em 2001 e foi diretor de fotografia de diversas produções
incluindo: Rambo II,
Uma Aventura na África, de Huston [leia aqui] Sob O Signo de Capricórnio para Hitch, etc. E que deliberadamente manipulou a velocidade da câmera durante o balé para criar o efeito de bailarinos quase que
pairando no ar, no auge de
seus saltos),
o desenhista de produção HEIN HECKROTH
(trabalhou com Hitchcock em Cortina
Rasgada, Torn Curtain, 1966)
e o diretor de arte ARTHUR LAWSON
(de filmes como Afundem o Bismarck, 1960 de Lewis Gilbert), estes últimos que são capazes de recriar cenas tão
exóticas (num belíssimo technicolor) e
ricas em diversos detalhes. Puro encantamento. Ganhou o Oscar de Direção de Arte e Música, para BRIAN EASDALE
(compositor que sempre trabalhou com os diretores) e indicações apenas para
Filme, Roteiro (Pressburger) e Edição.
Os vinte minutos do espetáculo
coreografado e colorido no palco, com trucagens e efeitos sobrepostos é de
encher os olhos. O que seria de Sinfonia de Paris, o famoso clássico, “An
American in Paris”,
1951, dirigido por Minnelli (aliás,
qualquer outro musical deste diretor), por exemplo? Ou mesmo qualquer outro
trabalho de Gene Kelly e até Fred Astaire e Ginger Rogers (mesmo a maioria ser em preto e branco exceto o
ótimo; Cinderela em Paris, 1957, com Hepburn) e até mesmo os musicais mais recentes (Moulin
Rouge! que o
diga). Não apenas os musicais, mas com toda a certeza, cineastas como Darren Aronofsky se inspirou totalmente
aqui para realizar e sua versão sombria e psicológica - que também aborda a obsessão - do ‘Lago
Dos Cisnes’ em Cisne Negro (Black Swan, 2010) com
Natalie Portman, até por que alguns detalhes
são pertinentes comentar quando, por exemplo, a bailarina (Nina) rodopia e a
câmera subjetiva norteia o olhar do personagem diante a plateia frente ao palco.
O projeto foi originalmente
concebido para MERLE OBERON (O
Morro Dos Ventos Uivantes, 39),
mas Powell estipulou que a única condição de ele aceitar fazer o filme era de
que a protagonista fosse de fato uma dançarina profissional. Shearer, que tinha
aquele rostinho de anjo, acabou surpreendendo, também, como atriz e sabe
personificar lindamente a trágica mulher que fora dos palcos segue os passos
dançantes da heroína de Andersen, conduzindo-se ao seu destino no grande clímax
do filme em seu famoso salto (literalmente como um balé) diante um trem,
arrependida por deixar seu grande amor partir. Aliás, uma curiosidade, foi o
ator STEWART GRANGER (Scaramouche,
1952) quem
sugeriu Shearer para os diretores.
Este aqui é um filme colossal. Os Sapatinhos Vermelhos foi uma obra pioneira em
mostrar como funcionam os bastidores e toda a magia por trás dos grandes
espetáculos teatrais. Também, evidencia a árdua doação do artista, que muitas
vezes negligencia a vida, mas nunca, jamais, o amor que sente pela arte. Além
disso, seu clima ajudou a tornar o balé mais acessível, antes um entretenimento
elitizado, mas que sempre teve apelo popular. Shearer se apresentando num
teatro barato com aquelas poltronas amontoadas e depois fazendo o mesmo,
viajando pelo mundo com Lermontov, mas sem nunca errar o passo e evitar a
sedução ao vê-la saltar. Há uma coleção de cores brilhantes (nunca tão
berrantes) e uma seleção musical clássica que não caem na armadilha do lugar
comum.
Inacreditavelmente produzido independentemente em 1948! Um triunfo. Um trabalho cinematográfico influente de se tirar o chapéu. Estupefaciente do início ao finis.
Inacreditavelmente produzido independentemente em 1948! Um triunfo. Um trabalho cinematográfico influente de se tirar o chapéu. Estupefaciente do início ao finis.
INGLATERRA
1948
ROMANCE/DRAMA/MUSICAL
COR
133 min.
NEW LINE HOME VIDEO/CRITERION
★ ★ ★ ★ ★
J. ARTHUR RANK
APRESENTA
UMA PRODUÇÃO
ARCHERS
ANTON WALBROOK MARIUS GORING
MOIRA SHEARER
ROBERT HELPMANN
LEONIDE MASSINE
ALBERT BASSERMAN
LUDMILA TCHERINA
ESMOND KNIGHT
The Red Shoes
DA OBRA DE Hans Christian
Andersen
Colorido por TECHNICOLOR
Escrito
por EMERIC PRESSBURGER
Diálogos
adicionais por KEITH WINTER
Diretor
de Fotografia JACK CARDIFF A.S.C
Camera
CHRISTOPHER CHALLIS Edição REGINALD
MILLS
Figurino Principal DOROTHY
EDWARDS
Produtor
Assistente GEORGE R. BUSBY Assistente
de Direção SYDNEY S. STREETER
Música de BRIAN
EASDALE
Cenografia
Desenhista
de Produção. . . . . . . . . HEIN
HECKROTH
Diretor
de Arte. . . . . . . . . ARTHUR
LAWSON
THE BALLET OF THE RED SHOES
Coreografado por ROBERT HELPMANN
THE PART OF THE SHOEMAKER Criado e Dançado por LEONIDE MASSINE
THE
ROYAL PHILARMONIC ORQUESTRA Conduzida por SIR. THOMAS
BEECHAM
TODA A PRODUÇÃO
Escrita,
Produzida & Dirigida por
MICHAEL POWELL
E
EMERIC PRESSBURGER
The Red
Shoes ©1948 The Archers/
Independent Producers/ Rank










2 comentários:
E que inveja desse teu "toda vez que eu revejo" lá do início do texto. Só vi uma vez. Me lembro de não tê-lo achado nada de fora de série. Lembro, também, do desejo de voltar a ele depois de ser estupefado por "Cisne negro". Mas não saciei esse desejo. Desnecessário, mas imperioro, dizer dos belos atributos do teu texto. De se apaixonar pelo cinema. Se é que isso ainda é possível para esse apaixonado aqui.
Aquele abraço!
Esse é um dos meus filmes de cabeceira. Rever uma vez a cada ano é obrigatório. Tb gosto de Cisne Negro, mas depois que conheci obras como "Perfect Blue", animação japonesa de Satoshi Kon, a fita de Aronofsky foi ficando cada vez menos atraente pra mim, embora ainda ache Portman soberba. Ah, só que "Sapatinhos" é outro nível de cinefilia. rs De um apaixonado para outro.
Abraço Rei.!!!
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