sábado, 7 de setembro de 2013

OS SAPATINHOS VERMELHOS

NA PONTA DOS PÉS


Uma jovem e promissora bailarina está dividida entre o homem que ela ama e sua busca para tornar-se a mais famosa dançarina de uma companhia de balé. Mas o que é mais importante?


Os Sapatinhos Vermelhos (The Red Shoes, 1948) é certamente o filme que apresenta o mais fantástico décor que eu já presenciei no cinema. Toda vez que revejo fico hipnotizado. Uma das maiores e mais influentes fitas em todos os tempos principalmente para o gênero musical que ainda reproduz uma tendência criada pelo filme com longas sequências musicadas de interlúdios estilizados e sofisticados. Eis uma produção de dar inveja aos americanos, o que me garante o fato de que as produções inglesas são tão melhores, grandiosas e ou/ ousadas do que as Hollywoodianas. Ao contrário dos contos de fada adaptados por Walt Disney, esta obra-prima superabundante é baseada na obra  de Hans Christian Andersen (1805-1875), muito longe de ser uma Pequena Sereia, o filme remonta a ideia de que a heroína principal tem que saber negligenciar sua vida pessoal para se devotar integralmente e passionalmente à arte e que culminará numa doentia fixação em prol da dança e a obra de Andersen, The Red Shoes, fala de uma garota cujos sapatos vermelhos a mantêm dançando até ela cair morta, literalmente!

Ainda é impressionante o feito espetacular dos cineastas e produtores independentes MICHAEL POWELL (diretor de A Tortura do Medo, Peeping Tom, 1960 – leia aqui) e EMERIC PRESSBURGER que por toda a carreira co-dirigiu produções soberbas com Powell (meu outro filme predileto deles é NARCISO NEGRO, Black Narcissus, 1947 e também CORAÇÃO INDÔMITO, The Wild Heart, 1957, feito em uma versão por Rouben Mamoulian nos Estados Unidos). Enfim, são autores de muitas realizações do cinema inglês, aliás, Pressburger se sobressaiu mais ainda como roteirista e é ele quem concebe o script principal do filme (dirigiram também o ótimo NESTE MUNDO E NO OUTRO, A Matter of Life and Death, 1946, com David Niven), mas com diálogos adicionados por KEITH WINTER, que escreve as mais diabólicas falas para um ator estupendo como ANTON WALBROOK que murmura com satisfação suas decisões religiosas quanto ao balé, embora que por trás do homem de negócios, rico, sofisticado e firme, existe um homem amargurado e solitário. 


Victoria ‘Vicky’ Page é a estreia de MOIRA SHEARER no cinema (mas não teve uma carreira extensa como atriz) e aplaudo várias e várias vezes essa mulher. Ela é jovem, atraente, pequena, ruiva, obstinada, tímida e que precisa dançar da mesma forma que precisa viver, quando questionada. E como toda Love Story, com princesas e seus príncipes, a moça se apaixona por um compositor que é o regente da orquestra sinfônica que acompanha as apresentações, Julian Craster, muito bem interpretado por MARIUS GORING. No entanto, seu empresário, Boris Lermontov (Walbrook) enxerga esse relacionamento como um obstáculo para seus negócios, interfere nesse amor obrigando-a decidir entre a carreira e o homem de sua vida. E é aí que o conto de fadas termina (o primeiro grande ato do filme é praticamente sem conflitos e antagonismos, mas é tão maravilhoso que não chega a incomodar). Lermontov é uma espécie de bruxa malvada que é um híbrido de Rasputin e Svengali e que transparece um sentimento confuso e estranho. Estaria apaixonado romanticamente por sua estrela? Orgulhoso por tê-la descoberto e lhe dado a primeira grande oportunidade de ser a bailarina principal da obra “Os Sapatinhos Vermelhos”, um dos mais aplaudidos sucessos de sua companhia, depois que a antiga estrela, Boronskaja, (a ótima LUDMILLA TCHÉRINA) faz o mesmo que Vicky e decide ser feliz como a mulher de um homem só, casando-se e se despedindo de seus dias gloriosos como bailarina. O problema é que as decisões da mocinha deixam o “vilão” de Walbrook obcecado pelo fato de que ninguém, nunca mais, poderá apresentar The Red Shoes em qualquer companhia e muito menos na sua! Somente ela, na ponta dos pés, demonstrou competência para fazê-lo. Depois do fato, a trama cai em um emaranhado de arrependimentos e conflitos terrificantes que irá selar o destino de Victoria e de todos os demais para sempre. 

Powell e Pressburger são auxiliados por uma equipe de mestres. O coreógrafo ROBERT HELPMANN (já dirigiu e encenou filmes como Don Quixote, 1973, produção australiana inspirado na obra de Cervantes e que é também um balé) que como ator vive aqui na pele de Ivan Boleslawsky e é o responsável pelo estupendo The ballet of The Red Shoes. Além de, o maestro Sir. THOMAS BEECHAM (também conhecido como um famoso empresário do ramo), o fotógrafo JACK CARDIFF (que ganhou o prêmio honorário da Academia em 2001 e foi diretor de fotografia de diversas produções incluindo: Rambo II, Uma Aventura na África, de Huston [leia aqui] Sob O Signo de Capricórnio para Hitch, etc. E que deliberadamente manipulou a velocidade da câmera durante o balé para criar o efeito de bailarinos quase que pairando no ar, no auge de seus saltos), o desenhista de produção HEIN HECKROTH (trabalhou com Hitchcock em Cortina Rasgada, Torn Curtain, 1966) e o diretor de arte ARTHUR LAWSON (de filmes como Afundem o Bismarck, 1960 de Lewis Gilbert), estes últimos que são capazes de recriar cenas tão exóticas (num belíssimo technicolor) e ricas em diversos detalhes. Puro encantamento. Ganhou o Oscar de Direção de Arte e Música, para BRIAN EASDALE (compositor que sempre trabalhou com os diretores) e indicações apenas para Filme, Roteiro (Pressburger) e Edição.

Os vinte minutos do espetáculo coreografado e colorido no palco, com trucagens e efeitos sobrepostos é de encher os olhos. O que seria de Sinfonia de Paris, o famoso clássico, “An American in Paris”, 1951, dirigido por Minnelli (aliás, qualquer outro musical deste diretor), por exemplo? Ou mesmo qualquer outro trabalho de Gene Kelly e até Fred Astaire e Ginger Rogers (mesmo a maioria ser em preto e branco exceto o ótimo; Cinderela em Paris, 1957, com Hepburn) e até mesmo os musicais mais recentes (Moulin Rouge! que o diga). Não apenas os musicais, mas com toda a certeza, cineastas como Darren Aronofsky se inspirou totalmente aqui para realizar e sua versão sombria e psicológica - que também aborda a obsessão - do ‘Lago Dos Cisnes’ em Cisne Negro (Black Swan, 2010) com Natalie Portman, até por que alguns detalhes são pertinentes comentar quando, por exemplo, a bailarina (Nina) rodopia e a câmera subjetiva norteia o  olhar do personagem diante a plateia frente ao palco.

O projeto foi originalmente concebido para MERLE OBERON (O Morro Dos Ventos Uivantes, 39), mas Powell estipulou que a única condição de ele aceitar fazer o filme era de que a protagonista fosse de fato uma dançarina profissional. Shearer, que tinha aquele rostinho de anjo, acabou surpreendendo, também, como atriz e sabe personificar lindamente a trágica mulher que fora dos palcos segue os passos dançantes da heroína de Andersen, conduzindo-se ao seu destino no grande clímax do filme em seu famoso salto (literalmente como um balé) diante um trem, arrependida por deixar seu grande amor partir. Aliás, uma curiosidade, foi o ator STEWART GRANGER (Scaramouche, 1952) quem sugeriu Shearer para os diretores.

Este aqui é um filme colossal. Os Sapatinhos Vermelhos foi uma obra pioneira em mostrar como funcionam os bastidores e toda a magia por trás dos grandes espetáculos teatrais. Também, evidencia a árdua doação do artista, que muitas vezes negligencia a vida, mas nunca, jamais, o amor que sente pela arte. Além disso, seu clima ajudou a tornar o balé mais acessível, antes um entretenimento elitizado, mas que sempre teve apelo popular. Shearer se apresentando num teatro barato com aquelas poltronas amontoadas e depois fazendo o mesmo, viajando pelo mundo com Lermontov, mas sem nunca errar o passo e evitar a sedução ao vê-la saltar. Há uma coleção de cores brilhantes (nunca tão berrantes) e uma seleção musical clássica que não caem na armadilha do lugar comum. 

Inacreditavelmente produzido independentemente em 1948! Um triunfo. Um trabalho cinematográfico influente de se tirar o chapéu. Estupefaciente do início ao finis



INGLATERRA
1948
ROMANCE/DRAMA/MUSICAL
COR
133 min.
NEW LINE HOME VIDEO/CRITERION
           


J. ARTHUR RANK
APRESENTA
UMA PRODUÇÃO
ARCHERS
ANTON WALBROOK   MARIUS GORING
MOIRA SHEARER
ROBERT HELPMANN
LEONIDE MASSINE
ALBERT BASSERMAN
LUDMILA TCHERINA
ESMOND KNIGHT
The Red Shoes
DA OBRA DE Hans Christian Andersen
Colorido por TECHNICOLOR
Escrito por  EMERIC PRESSBURGER
Diálogos adicionais por KEITH WINTER
Diretor de Fotografia JACK CARDIFF  A.S.C
Camera CHRISTOPHER CHALLIS  Edição REGINALD MILLS
Figurino Principal DOROTHY  EDWARDS
Produtor Assistente GEORGE R. BUSBY  Assistente de Direção SYDNEY S. STREETER
Música de BRIAN EASDALE

Cenografia
Desenhista de Produção. . . . . . . . .  HEIN HECKROTH
Diretor de Arte. . . . . . . . .  ARTHUR LAWSON

THE BALLET OF THE RED SHOES
Coreografado por  ROBERT HELPMANN
THE PART OF THE SHOEMAKER Criado e Dançado por LEONIDE MASSINE
THE ROYAL PHILARMONIC ORQUESTRA Conduzida por  SIR. THOMAS BEECHAM

TODA A PRODUÇÃO
Escrita, Produzida & Dirigida por
MICHAEL POWELL
E
EMERIC PRESSBURGER
The Red Shoes ©1948 The Archers/ Independent Producers/ Rank

2 comentários:

Reinaldo Glioche disse...

E que inveja desse teu "toda vez que eu revejo" lá do início do texto. Só vi uma vez. Me lembro de não tê-lo achado nada de fora de série. Lembro, também, do desejo de voltar a ele depois de ser estupefado por "Cisne negro". Mas não saciei esse desejo. Desnecessário, mas imperioro, dizer dos belos atributos do teu texto. De se apaixonar pelo cinema. Se é que isso ainda é possível para esse apaixonado aqui.
Aquele abraço!

Rodrigo Mendes disse...

Esse é um dos meus filmes de cabeceira. Rever uma vez a cada ano é obrigatório. Tb gosto de Cisne Negro, mas depois que conheci obras como "Perfect Blue", animação japonesa de Satoshi Kon, a fita de Aronofsky foi ficando cada vez menos atraente pra mim, embora ainda ache Portman soberba. Ah, só que "Sapatinhos" é outro nível de cinefilia. rs De um apaixonado para outro.

Abraço Rei.!!!

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