A INCOMUNICABILIDADE FEMININA
Filha rompe o relacionamento com a mãe culminando no desespero da mesma que um dia sonha em reencontrá-la.
O 20º Filme de Pedro Almodóvar só poderia ser sobre mulheres. No entanto, o diferencial de “Julieta” é que dentre todas as fitas de sua obra é um filme
mais distante, frio e doloroso. A paleta de cores continua lá, mas eu não senti
ser um filme vibrante como os anteriores que mesmo no drama terminava em gargalhadas como o premiado e hoje clássico "Tudo Sobre Minha Mãe" (Todo Sobre Mi Madre, 1999). Não. Aqui ele evita o humor típico mesclado ao melodrama. Eis um roteiro bem escrito e uma trama muito bem dirigida, embora
tenha sacrificado demais o final, em minha opinião, justamente no momento em que
gostaria de saber mais. É também um filme de narrativa mais lenta. Um Almodóvar
para os impacientes (?). Mas, há detalhes que fazem dele um diretor especial quando
vemos um close em um boneco esculpido em madeira envolto a um saco bolha e já nota-se que através
daquele item existe muita história e uma analogia ao grande amor da
protagonista (interpretado pelo galante Daniel Grao sentado seminu na mesma posição que o boneco) ...assim como nos livros,
nas cartas que a protagonista escreve e narra suas angústias e nas fotografias rasgadas. Detalhes característicos do cineasta espanhol.
Depois da péssima recepção de sua comédia rasgada; "Os Amantes Passageiros" (Los Amantes Pasajeros, 2013), Almodóvar surge das cinzas como uma fênix e entrega este lindo trabalho. Não tão admirável como a sua obra-prima "Fale Com Ela" (Hable Con Ella, 2002), ou mesmo "Volver" (Idem, 2006), mas nem por isso irregular. Não tem a intenção de ser mais um "Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos" quando o assunto são as mulheres. É um filme mais quieto e menos amalucado. É marcado também pelo retorno da atriz-fetiche do diretor; Rossy De Palma, quase irreconhecível pela envelhecida maquiagem.
Mais uma vez (e é meio que raro em sua filmografia), Almodóvar faz uma adaptação de autores estrangeiros (o mesmo aconteceu em "Carne Trêmula" e "A Pele Que Habito"). Agora, não é mais uma Ruth Rendell ou Thierry Jonquet e sim a canadense Alice Munro que já teve obras suas adaptadas: "Longe Dela" (Away From Her, 2006) da atriz e diretora Sarah Polley e o mais recente "Amores Inversos" (Hateship Loveship, 2013), citando alguns. Almodóvar mescla três contos do livro "Fuga", de 2004, aliás, ganhador do Prêmio Nobel. A hibridização dessas histórias em uma só é realmente um trabalho de gênio e muito inspirador. Na sua passagem no último Festival de Cannes, na qual o filme concorreu a Palma de Ouro, Almodóvar, que obteve os direitos de adaptação em 2009, disse que se envolveu com o livro devido a sua força imagética como nas cenas cruciais que se desenrolam no interior de um trem. Segundo ele: "Havia algo incrivelmente apaixonante naquele trem..." e completa: "Uma mulher viajando sozinha, é uma imagem muito cinematográfica." Obviamente que ao seu estilo, Almodóvar faz mais do que uma transmutação das histórias ( e acredito que cineasta nenhum deve se manter 100% fiel ao material, afinal, cinema é isso mesmo, adaptação, modificação, uma outra mídia) o que importa é a essência contida nas tramas, das relações familiares e principalmente as ligações entre as mulheres de Munro que ele manteve lindamente.
Curiosamente, o título inicial
seria "Silêncio", mas foi modificado para "Julieta" durante
sua pós-produção justamente para evitar confusões com o próximo filme de Martin
Scorsese, "Silence" para ser lançado ainda este ano.
Inicialmente este seria o
primeiro filme dele falado em língua inglesa e fiquei chocado ao ler que a
atriz que ele havia selecionado para o papel título era ninguém menos do que
Meryl Streep! A diferença é que Streep interpretaria três versões da personagem
aos 20, 40 e 60 anos de idade. Houve, de fato, uma reunião entre Almodóvar e
Streep, que aceitou o papel. Os produtores já trabalhavam nas locações no Canadá ,Vancouver onde as premissas são baseadas. No final das contas,
Almodóvar engavetou o projeto infeliz com a perspectiva de filmagem em qualquer
país estrangeiro e desconfortável com a sua capacidade de escrever um filme
totalmente em inglês. O que me faz crer na ideia de que ele é nada mais do que
espanhol. Está em sua alma. Anos mais tarde, ele foi convencido por amigos de
que deveria realizar o projeto, mas transcrever toda a história se passando na
Espanha e em espanhol.
Assim sendo, o filme conta a
trágica história de Julieta (Emma Suárez na fase mais velha), uma mulher linda, inteligente, porém melancólica que vive em Madrid, mas que está prestes a se mudar para Portugal
com Lorenzo (Dário Grandinetti: de "Fale com Ela" e "Relatos
Selvagens"). Mas, como tudo na vida é favorecido pelo universo, Julieta,
passando na rua, tem um encontro casual com uma amiga de infância de sua filha
chamada Beatriz (Michelle Jenner) e, obviamente, acaba descobrindo alguma
informação da filha, Antía (Priscilla Delgado na fase adulta) que
desapareceu sem deixar vestígios. Com isso, Julieta abandona a ideia de mudar de cidade (e de vida) com o seu novo amor quando a chama e coração apertado de mãe reacendem a esperança de restabelecer contato com a filha o que a faz se mudar para o antigo apartamento que morou com ela sendo este o único meio de contato com Antía. E, narrado de forma não linear, um flashback surge e vemos mais fragmentos da jornada desta mulher. Seu relacionamento apaixonante com Xoan (Daniel Grao) e o fruto deste amor que concebeu Antía, sua amizade com a ex-mulher de Xoan, Ava (Inma Cuesta), uma artista escultora, seu tumultuado relacionamento com o pai (Joaquín Notario, um homem idoso que se envolve com uma mulher mais jovem, sua mãe quase senil (Susi Sánchez) e Marian (Rossy De Palma), a empregada de Xoan. Um mosaico de tramas e personagens tipicamente Almodovariano.
É um filme sobre a incomunicabilidade e as consequências que podem tragicamente ocorrer entre mãe e filha. Agora eu entendo porque o título anteriormente se chamaria “Silêncio” um dos contos mais tristes de Munro (os demais são “Destino” e “Logo”). Mas, “Julieta” é um título que tem mais características Almodóvar e Adriana Ugarte e Emma Suárez fazem lindamente essa mulher depressiva e angustiada. Adoro, por exemplo, a mudança da passagem do tempo...quando as atrizes trocam de cena debaixo de uma toalha de banho. Enfim, um legítimo Almodóvar.
Espanha
Drama – Romance
1h 39 min.
Universal
★★★★★
El Deseo Apresenta
Um Filme de
Almodóvar
julieta
Com: Adriana Ugarte Emma
Suárez Inma Cuesta
Michelle Jenner Rossy de Palma Daniel Grao
Darío Grandinetti Nathalie
Poza Susi Sánchez
Música Alberto Iglesias Montagem José Salcedo
Direção de Arte Antxón Gómez Figurinos Sonia Grande
Direção de Fotografia Jean-Claude
Larrieu
Produzido por Agustín Almodóvar Esther
García
Direção Pedro Almodóvar
Roteiro Pedro Almodóvar Baseado nos Contos de Alice Munro
Julieta © 2016 El Deseo –
Canal+France – Ciné+ TVE









6 comentários:
É sim um filme mais distante, frio até como você fala, mas não deixa de ter emoções a flor da pele (ainda que escondidas dentro do peito e do silêncio) e tem também suas estranhezas, rs. Acho um retorno digno do cineasta, principalmente ao universo feminino.
bjs
Amanda: Sim, o roteiro é esplêndido. Almodóvar voltou em grande forma. Talvez as ideias secaram e ele precisava de um bom livro para inspirar uma adaptação e, sim, o filme é bem emotivo dentro de sua proposta, mas diferente de outros que falam sobre mulheres como "De Salto Alto", por exemplo. É um filme distante de Almodóvar por ser mais sério, como "A Pele Que Habito".
Bjs.
Seu comentário aumenta meu apetite pelo filme. Ao contrário de todo o resto da população humana, aprecio mais o Almodóvar contido e penetrante dos últimos tempos. Considero Fale com Ela e A Pele que Habito seus melhores filmes; se Julieta vai até além nesse tipo de registro, tanto melhor.
Cumps.
Gustavo, então suponho que irá apreciar Julieta. Sinceramente odiei A Pele Que Habito na primeira sessão quando fui ao cinema. Tem um texto meu na tag Almodóvar onde declaro tal frustração. Depois, tive um relacionamento melhor com a fita nas revisões. Ainda, em minha opinião, Fale com Ela é o seu ápice, mas adoro as comédias rasgadas também e os primeiros filmes undergrounds.
Abraço.
O problema de Almodóvar é o mesmo de Woody Allen nos últimos tempos: elenco decepcionante.
Discordo, Antonio. Dê uma chance a este Almodóvar. Não é a derrapada de Os Amantes Passageiros. Allen, bom, às vezes ele não entrega um filme tão bom quanto uma ou outra obra-prima como "Match Point" e "Meia- Noite em Paris".
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