sexta-feira, 21 de setembro de 2018

🎬 Amargo Pesadelo (1972) 🎥 John Boorman

RIO SELVAGEM
Com a intenção de ver o rio Cahulawassee antes de se transformar em um enorme lago, o fanático por esportes ao ar livre Lewis Medlock leva seus amigos em uma viagem de rafting que eles nunca esquecerão ... no perigoso interior sombrio dos Estados Unidos.

Um dos filmes mais impactantes, ressonantes e de grande audiência dos anos 70. Recentemente, com o falecimento do ator norte-americano BURT REYNOLDS (1936-2018) revi alguns de seus filmes. Outro de sua filmografia que também teve bastante impacto em mim foi Boogie Nights: Prazer Sem Limites (Boogie Nights, 1997), escrito e dirigido por  Paul Thomas Anderson e que eu já postei anteriormente lá para os idos de 2012 (leia aqui). Mas, ainda havia o filme que mais marcou a carreira do ator e que sempre me deixa  num estado de frenesi inquietante. Uma Aventura-Pesadelo dramática com o melhor do Thriller
Infelizmente, Reynolds morreu antes de começar a gravar as suas cenas no próximo filme do Quentin Tarantino; Era Uma Vez em Hollywood (2019). Fiquemos aqui com nossa memória afetiva e, agora, irei comentar sobre um dos grandes injustiçados no Oscar (a Filme, Direção, Montagem e nenhuma para ator!): AMARGO PESADELO - DELIVERANCE, que, ao traduzir a remo significa Libertação. Este que é o melhor feito do cineasta britânico JOHN BOORMAN (1933 - ) indicado a 5 Oscar num total em toda carreira e de fitas das mais variadas como Esperança e Glória (Hope and Glory, 1987) seu outro grande feito e aventuras fantásticas de matinês como o divertido Excalibur, a Espada do Poder (Excalibur, 1981) e para continuar citando alguns, O Alfaiate do Panamá (The Tailor of Panama, 2001), outro suspense, só que baseado em John Le Carré, aliás, um filme subestimado. E é claro, não vamos esquecer do momento em que ele quase afundou a carreira ao aceitar dirigir a sequência de O EXORCISTA de William Friedkin numa sessão furiosa com direito a tomates sendo atirados na tela! Também escreveu e dirigiu a bobagem ZARDOZ (1974) com Sean Connery em trajes ridículos e Charlotte Rampling uma aventura sombria estilo sci-fi pouco antes de Star Wars em um momento crucial na qual a Twentieth Century Fox buscava um projeto do gênero que só aconteceria mais tarde com a obra do George Lucas.
Boorman teve uma carreira sólida na televisão na década de 60 e passou a dirigir filmes para cinema em 1967 com À Queima Roupa (Point Blanck) estrelado por Lee Marvin e Angie Dickinson, um filme que mostrava um cineasta promissor. Inferno no Pacífico (Hell in the Pacific, 1968) novamente com Lee Marvin e com o astro japonês dos filmes do Kurosawa; Toshirô Mifune (este considero uma pequena obra-prima) e o também ótimo Príncipe sem palácio (Leo the Last, 1970) com Marcello Mastroianni e Billie Whitelaw vieram antes, até conseguir realizar o filme que marcaria sua carreira. Curiosamente, Deliverance era um projeto cogitado pelo poeta da violência SAM PECKINPAH (1925-1984) que na ocasião rodava na Inglaterra Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs, 1971). Agora, cá entre nós, pessoalmente, acredito que na visão de Peckinpah teríamos outro filme igualmente perturbador. Talvez até mais. Entre uma tomada e outra, Peckinpah, reza a lenda, lia o romance de JAMES DICKEY (1923-1997) na qual deliverance é baseado. Enquanto isso, Boorman já estava no estado americano da Geórgia filmando o rio Chattooga como se fosse o rio da premissa (Cahulawassee), na sua própria viagem ao coração das trevas à procura de locações. 

Na verdade, Amargo Pesadelo é um filme daquele ciclo descontente de Hollywood - a década de 70 - acontecia a Guerra do Vietnã, correto? E a moral das pessoas estava em crise. Isso refletiu no cinema. Todos os filmes deste período eram violentos e com finais infelizes. Certamente o exemplo mais comentado é realmente Operação França (1971 - leia aqui) estrelado por Gene Hackman. Conscientemente ou inconscientemente, os filmes eram produzidos simultaneamente e as tramas se conversavam. O filme do próprio Peckinpah, Sob o Domínio do Medo, é sobre pessoas tranquilas, comuns, de classe média, que se vêem diante de uma violência perturbadoramente sexualizada e irracional. Evidente que todas as consequências serão igualmente irracionais segundo o nosso mecanismo de defesa. Roteiros que indicam que a premissa ocorrerá longe da civilização, ou seja, o cenário perfeito para a vítima se "libertar" daquilo que lhe foi ensinado como certo e decente. É o momento em que todos nós, diante a uma situação dramática/chocante/inesperada nos mostramos exímios assassinos selvagens. É isso. Na natureza selvagem o homem descobre, além do básico instinto de sobrevivência e inadequação que é capaz de caçar, matar! Isso mesmo.


Wes Craven (1939-2015) realizou também nessa mesma época outro filme similar, o terror Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes ,1977), que eu nunca consegui rever muitas vezes, não pelo fato de ser ruim, de péssimo gosto ou qualquer coisa que o valha, longe disso,  mas por ser extremamente terrificante.  E, sem contar que o primeiro filme dele foi nada mais nada menos do que Aniversário Macabro (The Last House on the Left, 1972) que também segue a mesma linha de brutalidade sexual. Creio que Boorman pega um pouco mais leve aqui comparado a esses outros filmes, mas que nunca tenha indícios de afetações e auto-censura, mesmo porque os estúdios da Warner Brothers sempre foi pioneiro em lidar com filmes do gênero. 

Pra quem é da selva de pedra todas as situações dramatizadas em Amargo Pesadelo soam estranhas e de outro mundo. Já nas primeiras cenas.  Começa com quatro personagens suburbanos e tradicionais que se apresentam como homens contrastantes. Todos de personalidades distintas. Mas que nos dão a impressão de que nada os afetará, afinal, são os típicos homens machos alfas e que nem uma picada de cobra seria algo para se preocupar. Ed, personagem de JON VOIGHT é o mais silencioso e observador, Lewis (REYNOLDS) é o líder do grupo e sobrevive a todas provações possíveis, Bobby, NED BEATTY ( de Superman - O Filme ) é o fanfarrão do grupo e RONNY COX ( de O Vingador do Futuro ) interpreta Drew, o sensível e com senso de fazer o certo.  Todos eles despreocupados e felizes, falando asneiras durante a viagem (durante a sequência de créditos apenas se ouve os diálogos sem trilha sonora musical) pelo interior da Georgia, numa mata prestes a ser destruída por uma represa que criará um novo lago, tendo optado por descer o rio de canoa em vez de irem jogar aquela partida de golfe ou quem sabe aquele churrasquinho de quintal (?). 

Tudo no filme acontece com tamanha lentidão, aliás, há momentos agradáveis em seus primeiros minutos de metragem. Numa espécie de "boas vindas" a cena do duelo de banjos (o banjo é um instrumento que tem fácil associação a este filme) em que o mais frágil do grupo, Drew, toca um dueto memorável com um garotinho que é na verdade BILLY REDDEN (o homem do banjo), sentado à entrada da varanda de uma casa velha é provavelmente um dos pontos altos da fita. 

Mas o que realmente a gente nunca mais irá esquecer depois de assistir é quando Ed e Bobby são atacados por uma dupla de caipiras armados (hoje em dia seria politicamente incorreto, mas esse filme faz com as pessoas do interior o que a Era de Ouro do cinema, sobretudo,   a cultura dos Western, faziam com os  índios), estes arrancam a roupa de Bobby, fazem com que "grite como um porco" (você não irá a julgamento se começar a rir) e o estupram (desafio a rir agora), enquanto Ed assiste imóvel toda a cena sem poder fazer nada amarrado a um tronco de uma árvore com seu próprio cinto, absurdamente mantendo firme o cachimbo durante toda a provocação. Ao término da cena mais dantesca que já vi em um filme, não tem como ficar indiferente ou aliviado. O sentimento de vingança é automaticamente libertado. E, como um herói que chegou para salvar o dia, é a vez de Reynolds intervir numa espécie de homenagem disfarçada a John Wayne, diga-se de passagem. Armado com um arco à la Robin Hood, ele mata o estuprador (BILL McKINNEY) com uma flecha, e o quarteto, com sentimentos profundamente confusos no melhor estilo de Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado... decide encobrir o "incidente" (se é que podemos chamar assim) enterrando o corpo para então fugir daquela região o mais depressa possível. Sem esquecer que o outro meliante caipira fugiu sobrevivendo ao "ataque" (interpretado por HERBERT COWARD ) que continuará armado também com o seu rifle se esgueirando nas redondezas. Com isso, a bucólica paisagem natural se transforma numa armadilha hostil.  

Boorman não opta pelo convencional filme de aventura pela sobrevivência. Tudo neste filme é de fato inusual. Não é mais umas daquelas fitas clássicas sobre o grande homem. A abordagem de Boorman e  Dickey é puramente perturbadora. É um filme que nos faz refletir sobre o papel do heroísmo, isto é,  o arquétipo mais tradicional de um personagem da ficção. O que tudo isso realmente significa? E para provar que o filme tem a marca desta década triste, a conclusão é que Voight, sempre melancólico, acabou por encontrar em si mesmo a bestialidade necessária para sobreviver, mesmo porque ele precisou enfrentar os próprios medos, mas que, acabou por sair perdendo. Quanto a Reynolds, a quem é dada uma chance de reestruturar a sua persona de "cara legal", apresenta uma atuação tão autocrítica quanto a de Wayne em  Rastros de  Ódio.  

O filme se utiliza de alguns artifícios do cinema de horror que é muito bem vindo, como na virada de última hora na trama e que foi por vezes muito imitada. O sono de Ed é perturbado por um pesadelo no qual uma mão emerge das águas do novo lago segurando um rifle. Boorman já foi precursor aqui do que Brian De Palma faria depois em Carrie

Amargo Pesadelo é a libertação de nossos demônios interiores. Um teste de caráter, força, perseverança e sobrevivência. 

EUA
Aventura - Drama - Thriller 
1h 49 min. 
★★★★★



UM FILME DE JOHN BOORMAN
                          Estrelando: 
JON VOIGHT   BURT REYNOLDS
Deliverance
WARNER BROS. / ELMER ENTERPRISES © 1972
com:
NED BEATTY 
RONNY COX
ED RAMEY   BILLY REDDEN
BILL McKINNEY  HEBERT “COWBOY” COWARD
LEWIS CRONE  KATHY  RICKMAN
Fotografado por VILMOS ZSIGMOND
Música
ERIC WEISSBERG
STEVE MANDEL . ARTHUR SMITH
Canção: “Dueling Banjos”
Montagem de TOM PRIESTLEY
Direção de Arte por FRED HARPMAN
Roteiro de JAMES DICKEY Baseado em seu Livro
Produzido e Dirigido por
JOHN BOORMAN

Um comentário:

Hugo disse...

Também considero que "Amargo Pesadelo" e "Boogie Nights" são os melhores filmes da carreira de Burt Reynolds.

O filme de John Boorman é cruel, violento e selvagem, com algumas cenas antológicas. O duelo de banjos é sensacional.

Abraço

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