OUTUBRO DAS BRUXAS
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FACES
Um cirurgião causa um acidente que deixa a filha desfigurada e vai ao extremo para lhe dar um novo rosto.
Há muito tempo que estava querendo assistir Les yeux sans visage (1960) uma das grandes obras-primas do cinema de horror europeu. No auge do período, quando filmes como Psicose e A Tortura do Medo eram lançados. Creio que Pedro Almodóvar utilizou elementos deste filme ao fazer a adaptação de A Pele Que Habito (2011) de Thierry Jonquet. São evidentes os típicos ingredientes de um filme de horror clássico que compõe o cientista, a cobaia e o assistente. Entretanto, o diretor GEORGES FRANJU (1912-1987) transforma o popular terror numa espécie de Grand Guignol levado à tela grande. Aliás, Os Olhos Sem Rosto é a única incursão no gênero terror do co-fundador da Cinemateca de Paris. Tendo dirigido dramas de suma importância no Cinema Francês: Thomas l'imposteur (1965) e Thérèse Desqueyroux (1962), estes estrelados por Emmanuelle Riva. Muito influenciado pelos mestres Fritz Lang, Murnau e Jean Painlevé, Franju foi um cineasta focado na produção do chamado "política de autores" e Les yeux sans visage não seria exceção. Mas por ser um filme assumidamente de terror é bem mais interessante. Dirigiu também Pleins feux sur l'assassin (1961) sobre um velho conde que decide se esconder em uma alcova secreta e morrer lá, só para irritar seus herdeiros. Como o corpo não foi encontrado, o último terá de esperar cinco anos até que possa herdar o dinheiro da contagem. Trama escrita por Pierre Boileau e Thomas Narcejac autores de Um Corpo Que Cai (1958) e As Diabólicas (1955) e que também colaboram neste.
Também um admirador de Jean Cocteau (1889–1963) é como se o mesmo tivesse dirigido qualquer obra de Edgar Allan Poe. O filme tem fortes influências do romance pulp e Franju não exita em "abusar" da poesia da sua fotografia aqui assinada pelo polonês Eugen Schüfftan (1893 1977) que trabalhou nos efeitos visuais de Metropolis (1927) e tendo fotografado mais de setenta e sete filmes da era do cinema mudo até os anos de 1960. Há bastante sensibilidade do diretor ao mesmo tempo em que demonstra complexidade aos esteriótipos que já esperamos dos filmes de terror como o já citado cientista louco e seu assistente e que aqui é brilhantemente vivida por uma mulher, a eterna ALIDA VALLI (1921-2006) como Louise. Isso sem mencionar o seu "monstro": ele conquista de forma magnífica a simpatia dos espectadores pela desfigurada Christiane Génessier o papel da vida de EDITH SCOB ,simplesmente fantástica. O primeiro plano, em que dois faróis cortam a escuridão do interior da França, vistos de dentro do carro, cria uma imagem semelhante a uma máscara - que espelha a máscara inexpressiva que cobre o rosto de Christiane - , no entanto, da perspectiva de quem a utiliza.
Na premissa, o brilhante Dr. Génessier interpretado por Pierre Brasseur (1905–1972), do clássico Cais das Sombras (1938) de Marcel Carné, em seus experimentos para superar a rejeição de transplantes de órgãos, dedica-se a encontrar uma jovem com um rosto que sirva para substituir o de sua filha Christiane (Scob), que fora tragicamente desfigurado em um acidente automobilístico causado por ele. Nosso primeiro contato com a fita se dá por trás da tal máscara (que, cá entre nós,causa mais arrepios do que a do Michael Myers) e, quando finalmente vemos o rosto de Christiane, não é o revestimento de plástico que cobre ou (quando ele é retirado) o músculo exposto fora de foco que chama a atenção, mas os olhos tristes da jovem - impossível evitarmos olhar direto para eles! Até mesmo porque já havíamos enxergado naquele primeiro plano. Franju faz com que a gente se identifique com "o monstro".
Brasseur é o homem trágico que comete crimes horrendos, mas, ele está bem longe de ser comparado com o Dr. Frankenstein. O filme é de fato experimental em muitos aspectos, por exemplo, Franju se certifica em oferecer uma série de espetáculos grotescos, a começar pela máscara o adereço de cena mais impactante de todo o filme. Mas, pouco satisfeito, o diretor nos tortura, passando por um rosto sendo retirado de uma jovem vítima, aliás, não faltam outros horrores cirúrgicos, a imagem da face desfigurada de Christiane, até o Dr. Génessier sendo destroçado por seus próprios cães!
O filme hibridiza lindamente o bom e mau gosto cultural, na qual somos apresentados à beleza e à poética inerentes ao horror graças à recusa do diretor em explorar ou se esquivar das imagens explícitas.
Terrivelmente aterrador e chocante.
TERROR - DRAMA
1h 30min.
★★★★☆
um filme de
Georges Franju
Les yeux
sans visage
elenco:
Pierre
Brasseur ... Docteur Génessier
Alida
Valli ... Louise
Juliette
Mayniel ... Edna Grüber
Béatrice
Altariba ... Paulette
Alexandre
Rignault ... Inspector Parot
Charles
Blavette ... L'homme de la fourrière
Claude
Brasseur ... Un inspecteur
Yvette
Etiévant ... La mère
e
Edith Scob ... Christiane Génessier
Música de
Maurice Jarre Direção de Fotografia Eugen Shuftan
Montagem
Gilbert Natot Direção de Arte
Auguste Capelier
Figurinos
Marie Martine Maquiagem
Georges Klein
Roteiro
de
Pierre
Boileau
Thomas
Narcejac
Jean
Redon
Claude
Sautet
Diálogos de
Pierre Gascar Baseado no
livro de
Jean Redon
Dirigido por
Georges
Franju
Champs-Élysées
Productions/Lux Film © 1960





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